Capítulo 01 - O som que nunca para

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O quarto 312 tinha cheiro de álcool, plástico e despedidas não ditas.

Enid Sinclair já sabia identificar cada som daquele lugar. O bip ritmado do monitor cardíaco. O leve chiado do oxigênio. O ranger discreto da porta sempre que alguma enfermeira entrava com um sorriso ensaiado demais para ser verdadeiro.

Ela também sabia reconhecer o silêncio.

O silêncio das mensagens que não chegavam.
Das promessas de visita que eram adiadas.
Das cadeiras vazias ao lado da cama.

No começo, sua família vinha todos os dias. Flores coloridas, balões exagerados, palavras otimistas demais. Depois, as visitas ficaram semanais. Depois quinzenais. Depois… raras. Sempre havia uma desculpa plausível: trabalho, trânsito, compromissos importantes.

Enid não os culpava.

O câncer era cansativo. Para todos.

Ela virou o rosto para a janela. Nova York estava nublada naquela manhã — ou talvez fosse apenas a impressão cinza que seus olhos davam ao mundo. Gostava de imaginar como o céu parecia fora dali. Azul? Vivo? Livre?

Ela fechou os olhos por alguns segundos.

Às vezes, tinha medo de dormir.
Às vezes, tinha medo de acordar.

O corpo doía. Não só pelas sessões de quimioterapia, mas pelo cansaço acumulado de lutar contra algo que parecia sempre um passo à frente. Seus cabelos, antes longos e coloridos, agora eram apenas uma memória guardada em fotos no celular.

Ela tocou a própria cabeça raspada e suspirou.

— Bom dia, raio de sol — disse uma enfermeira, animada demais para aquele horário.

Enid forçou um sorriso.

— Se eu sou o sol, então o mundo definitivamente acabou.

A enfermeira riu, ajustou o soro e saiu.

E o quarto voltou a ficar quieto.

Até que o silêncio foi quebrado por algo diferente.

Passos.

Não os passos apressados e técnicos da equipe médica. Eram lentos. Calculados. Firmes.

Enid virou o rosto para a porta no exato momento em que ela se abriu.

E, por um segundo, tudo pareceu fora do lugar.

A garota que entrou ali não combinava com hospital nenhum.

Pele absurdamente pálida.
Olhos escuros, profundos demais.
Tranças negras perfeitamente alinhadas.
Roupas inteiramente pretas, como se estivesse sempre a caminho de um velório.

Talvez estivesse.

Wednesday Addams parou na porta como se estivesse avaliando o ambiente. Seu olhar percorreu o quarto, os aparelhos, o soro, os fios conectados ao corpo de Enid.

Não havia pena ali.

Não havia compaixão forçada.

Só observação.

— Você está perdida? — Enid perguntou, erguendo uma sobrancelha.

A garota inclinou levemente a cabeça.

— Não costumo me perder. Especialmente em lugares onde a morte ronda com tanta previsibilidade.

Enid piscou.

Depois riu.

Riu de verdade.

Era estranho. Ninguém falava assim com ela. As pessoas evitavam a palavra “morte” como se pronunciá-la fosse acelerar o processo.

Até o último dia - Wenclair Onde histórias criam vida. Descubra agora