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Sua vida é única, meu bem. Ninguém vai viver por você.

Segunda-feira | Rio de Janeiro
Arielly Almeida.

Point of view.

Quando eu li a mensagem do Renato, eu quase infartei.

Independente de tudo, e acima de qualquer coisa, a Vanessa é, e sempre será a minha mãe, mesmo depois de tudo que ela fez comigo, com a única filha dela. 

— Se acalma, Ary. — a Karine segurou meus ombros enquanto eu andava de um lado para o outro. — alguém deve estar cuidando dela, ela é a mulher do Carlão agora, então ela é prioridade. — eu tentava ficar tranquila, juro que eu estava tentando. Mas porra, minha mente imaginava um monte de coisa.

— Celular do Guilherme só dá caixa postal. — vi a Maju morder os lábios. — não tem ninguém que possa nos dar notícias ou fazer a gente sair daqui agora.

Concordei suspirando.

— Tem horas que vocês estão aqui e eu não ofereci absolutamente nada, perdão meninas. — passei a mão no rosto e fui até o guarda roupa onde eu colocava as minhas coisas. Tirei dois vestidos e abri um saquinho que estava lacrado de calcinhas novas e estiquei na direção delas. — tem sabonete no cabinete, e toalhas no armário. Vão tomar um banho. — sugeri e elas concordaram.

Me levantei amarrando meu cabelo, peguei uma leggie, regata, calcinha e sutiã, e fui para o outro banheiro. Quando acabei o banho, já vesti minha roupa e desci as escadas indo fazer um café.

O Renato tinha muita coisa em casa, diversas variedades de coisas que eu ficava até surpresa. Não pelo fato de gastar com aquilo, mas sim em ele ter a responsabilidade de comprar.

Fiz o café bem forte e logo em seguida fiz algumas tapiocas com queijo e presunto, coloquei algumas bolachas e biscoitos na mesa e chamei elas.

— Puta que pariu, que horas são? — Maju perguntou assustada enquanto comíamos e eu lembrei do meu celular que eu nem sabia onde estava mais. — cara, eu tenho que trabalhar. — ela passou a mão no rosto e eu me recordei que agora eu também tinha um trabalho.

Não deu tempo responder, a porta da sala abriu, e eu levantei da cadeira num pulo indo ver quem era. E lá estava meu primo, um vapor e o teco. Senti meu coração acelerar, as mãos suarem e o pensamento ir direto no meu namorado.

— Cadê o Rw? — me aproximei do meu primo. — e minha mãe?

— Bom dia, menina. — o Matheus ironizou e eu ouvi a Karine xingar ele.

— Ele tá com tua mãe. — Gw falou e eu respirei um pouco aliviada.

— Você está bem, né? — Maria perguntou e eu dei espaço para ela ir á frente dele, eles dois se abraçaram e deram um selinho. Eu sorri de lado e olhei para o vapor.

— Patroa tá bem, tá no pontinho se recuperando, hoje mesmo tem alta, tiro pegou de raspão no ombro. — O vapor disse e eu me tranquilizei. — Todos os comércios estão fechados, tem vinte e sete feridos e trinta mortos. — arregalei os olhos e senti faltar ar nos meus pulmões. Me sentei no sofá, ficando completamente em choque. — os corpos estão estirados na rua principal, a família tá lá fazendo o reconhecimento. — senti minha mãos geladas.

— Preciso ir para casa. — Karine passou por mim correndo e saindo de casa, Teco ficou sério no mesmo instante e foi atrás.

— Algum conhecido? — perguntei sentindo minha garganta fechar.

— Diversos, Arielly.

A Maju saiu dos braços do Gw assim que ele falou isso, ela pegou o celular com as mãos trêmulas. Mas logo em seguida, ela soltou um suspiro de alívio. Mas eu ainda me mantia sentada, com a boca seca e o coração acelerado.

" Vinte e sete feridos e trinta mortos."

Não sei como, mas eu consegui pegar o controle e ligar a televisão. E já vi, a mídia caindo em cima.

Nessa madrugada, aconteceu uma terrível trocação de tiro no Morro do Vidigal, que deixou dez policiais mortos. Policiais limpos, que estavam fazendo o seu trabalho, indo atrás de criminosos, que tiraram a vida de trabalhadores que prezam pela segurança do país.

Não aguentei ouvir nenhuma palavra a mais da Jornalista. Branca, Rica, e Loira.

— Vou descer. — me levantei do sofá limpando uma lágrima que desceu. Maju disse que também iria, Guilherme foi com a gente, junto com o vapor. — Você é filho da Dona Tita, não é? — perguntei depois de séculos depois. A rua da casa do Renato, era bem distante da casa da minha mãe, do postinho e da rua principal, que dava acesso a esses locais. Então, a descida era longa.

— Sou. — ele foi curto, e eu não prolonguei nada além daquilo. Quando chegamos, Gw disse que iria ver a mãe dele, e procurar o pai que não deu as caras desde ontem cedo. Estranhei para um caralho, mas eu não iria me meter em nada, minha opinião era a mesma do Renato, que pelo visto, não foi bem aceita. Maju disse que iria ver a mãe, e o Vapor ficou para ir comigo até o postinho. — Se quiser, nois pode ir pela rua de cima, a principal tá feia, não é bom tu ver essas coisas. Ninguém teu está lá. — ele parou na encruzilhada, e eu mordi o lábios inferior. — não tô na intenção contigo não, pelo amor de Deus, falei porque tem mina que nem curte esse bagulho de ver sangue e...

Não deixei ele terminar de falar e dei uma risada sem graça, nunca que eu pensei naquilo. A questão mesmo, era a angústia e a dor que eu sabia que seria passar na principal.

— Magina. — cortei logo passando a mão no rosto. — só estava pensando mesmo por onde. — ele coçou a cabeça. — Como é teu nome?

— Th. — concordei e entrei na rua esquerda e assim seguimos pela rua de cima até sair no fundo do postinho.

Quando chegamos, ele nem entrou, só disse que avisasse o Rw que qualquer coisa era só dar um salve. Entrei em um corredor que uma enfermeira me orientou. Vi meu namorado sentado na cadeira ao lado do Carlão. Caminhei rápido, quando ele viu eu me aproximando, ele levantou e eu o abracei forte. Sentindo cheiro de suor, sangue e poeira.

— Como você está? — segurei no seu rosto sentindo minhas lágrimas molharem o meu. Ele fungou, limpou minha bochecha, deu um beijo demorado na minha testa, mas logo tratou de me responder.

— Tô vivo, po. — vi os olhos dele vermelhos, ele estava tão abalado quanto eu. O morro tava desmoronando. — Tua mãe tá aí dentro. — concordei e me afastei dele indo até a sala, mas antes, limpei o rosto e encarei o Carlão. Ele apenas balançou a cabeça e eu fiz o mesmo.

A minha mãe estava sentada em uma maca, a médica estava dando as recomendações e cuidados com o ferimento. Tinha sido de raspão, mas pelo visto, o machucado tinha sido bem feio.

Assim que ela explicou tudo e entregou a receita para poder comprar a pomada e o remédio, ela saiu, deixando somente eu e a minha mãe na sala.

— Como a senhora está? — me aproximei e eu vi os olhos dela brilhando. As lágrimas começarem a descer, suas mãos tremer e sua boca secar. — Mãe? — toquei no outro ombro dela, e foi só eu fazer isso e ela cair no choro. Um choro de medo? — Você tá me asustando, mãe. Tá sentindo dor? — ela negou com a cabeça e soltou o soluço.

— Me perdoa, por tudo. — sua voz saiu fraca e eu senti minha respiração pesar. — Volta para casa, filha. Eu te conto tudo, lhe dou os meus motivos. Só volta pra mim.

Eu não respondi, apenas coloquei minha cabeça em cima da dela, sentindo meu peito doer e o choro vir, como eu não podia abraçar, fiquei fazendo um carinho nos seus cabelos, ficando perdida ali.

×××

Vocês interagem comigo quando é para me cobrar á voltar a postar logo né, bonitinhos (a).

M.

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⏰ Última atualização: Feb 23 ⏰

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