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A vida é feita para ser vivida.

Madrugada de Domingo | Rio de Janeiro.
Renato Cardoso. RW

Point of view.

O grave do baile fazia o chão tremer, as luzes improvisadas piscavam entre fios pendurados, e o ar cheirava a suor, bebida e liberdade. Gente rindo, dançando colada, gritando letra de música como se aquilo fosse um hino de sobrevivência. Dei até uma risada baixa, povo vivia mesmo quando era dia de baile, como se fosse o último.

Encostada na grade, Arielly dançava sem pensar no amanhã, ela e as outras duas amigas. O cabelo grudava na nuca, o corpo seguia o ritmo, e por alguns minutos o mundo era só aquilo pra mim. Ver a minha Ariel.

Até que donada tudo mudou.

O grave morreu no meio da batida. Nego sente na hora. O silêncio fez mais barulho que a música.

Os donos de paredão deixaram o volume pra baixo do nada. Um silêncio estranho caiu, pesado demais pra ser normal. Depois vieram as luzes — não as do baile, saco? mas aquelas, brancas, duras, varrendo o morro como olhos.

— É a polícia, caralho. — alguém gritou, a voz rasgando o ar.

Arregalei os olhos, coloquei a mão na cintura atrás do raidinho, sem interferência, não tava pegando.

O caos explodiu em questão de segundos.

A Arielly me encarava com os olhos arregalados, corri até ela, beijando sua testa. — Vou te mandar lá pra casa, vocês três, tá cercado de segurança, não sai de lá por caralho nenhum. — tentei tranquilizar ela que estava toda assustada. Não era a primeira vez que ela passava por isso, e nem vai ser a última.

— Toma cuidado, eu te amo. — ela fungou e eu fiz sinal para um segurança, pedindo pra levar elas no carro blindado, qualquer fio de cabelo fora do lugar, ia ser cobrado.

Gente correndo pra todos os lados, copo caindo, empurrão, grito. O baile virou fuga em segundos.

Sirene ecoando. Passos batendo nas escadas estreitas. O barulho seco de botas subindo, vozes duras dando ordens que ninguém queria ouvir e muito menos obedecer. Paus no cu.

— Encosta na parede! Mão na cabeça!

Dei sinal para os meninos que tava em cima e corremos para a outra parte, cheguei na laje e fiquei asustado com o que eu vi.

Lá embaixo, o morro gritava. Portas batendo, gente pulando laje, correndo por vielas que só quem nasceu ali conhecia. Helicóptero rondando como um predador invisível.

Meu estômago gelou.

— Porra… — falei baixo, já pulando uma laje e entrando no beco escuro ouvindo a voz do Carlão.

"Quero todos os moradores em casa, e todos dos meus dando a vida nesse caralho, todas as linhas de rádio foram cortadas, cada um por si e Deus por nós"

Quando vi o primeiro clarão subindo a viela, já era, ia bater de frente nesse caralho.

— É polícia! — ouvi o Avianzinho novo falar. — É polícia, Rw, sai daí caralho. — ele repetiu e eu estampei de frente, metralhando sem dó os dois de uma vez, vendo os corpos esbagaçarem no chão.

Entrei na rua principal, e aí que eu me assustei pra caralho com a bagunça.

Vi gente cair. Não tropeçar. Cair mermo viado.

Um dos nossos que tava rindo cinco minutos antes la no baile com nós tava  esticado perto da adega. Olho aberto, sem entender nada. Um tentou puxar ele.

— Levanta porra.

Não levantou.

Meu peito fechou.

Porra… não era pra isso tá acontecendo.

Ninguém ouvia ninguém. Só tiro, grito e o barulho de bala batendo em parede. Faísca voando. Gente se jogando no chão, se escondendo atrás de muro fino como papel.

Vi um moleque novo, cria da área, cair perto da escada. A mão no peito, sangue escuro espalhando pela camisa.

Essa é a parte foda.

A polícia subia com tudo. Gritando ordem que ninguém conseguia cumprir e nem deveria.

O morro gritava. Literalmente. Mãe chorando, gente pedindo pra parar, gente rezando alto, xingando Deus e o mundo ao mesmo tempo.

A troca ficou feia. Feia mermo. O ar pesado de pólvora. O tempo estranho, lento, rápido, os caralho a quatro. Eu tava asustado pra uma porra já.

Nem via a hora passar, mas tudo que eu podia, eu tava fazendo, protegia os meus, entrava na frente das balas e atirava sem dó nos canas que vinham pra cima.

Até que mais uma vez em questão de segundos, silêncio picotado.

O rádio chiou, pela primeira vez.

— Recuo. Repito: a polícia recuo, porra.

Eu nem acreditei de primeira. Papo reto.

Vi as luzes começarem a descer. Passo apressado. Grito mais nervoso que antes. O helicóptero se afastando, o som ficando distante, como se o céu finalmente respirasse.

A polícia recuou.

O morro ficou.

Mas ficou ferido.

Saí do beco ,devagar. Corpo tremendo agora que dava pra sentir. Olhei em volta… e vi o preço.

Gente no chão. Silêncio demais. O baile morto. Nossa favela quebrada.

Encostei na parede, escorreguei até sentar. Passei a mão no rosto, sujo de poeira e sangue. Minha respiração tava ofegante.

Olhei pro meu pulso, onde tinha meu relógio, marcava seis da manhã, em ponto. Três horas seguidas de puro desespero.

No morro, vitória não é sair limpo.
É sair vivo. O que pra uns aqui, nem deu.

— Rw, tá aí? — ouvi o rádio chiar e apertei o botão dando sinal. Era o teco. — Vanessa tá ferida porra.

Suspirei fundo me levantando. Entrei no WhatsApp onde tinha várias mensagens dela.

Ariel ❤️

Estou rezando por vocês . Que de tudo certo e que você volte para mim bem, assim como saiu. Te amo!
03:43

ficando preocupada, ouvi os meninos da segurança dizendo que cortaram as interferências dos rádios
04:20

Cadê você, amor?
05:59

Oi minha Ariel, bem prc, fica em paz
06:13.

As meninas cntg?
06:13

Estão sim, pq?
06:14

Tua mãe parece que machucada po
06:14

Vida?
06:18

Chamada de voz não atendida.
Chamada de voz não atendida.
Chamada de voz não atendida.
Chamada de voz não atendida.

Cabeçuda
06:35.

×××

Eitcha bbss.

M.

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