Os escolhidos - Capítulo 1 - Parte II

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Após uma hora de festa, as portas do salão se abrem com um som estrondoso. O Mago entra com seu jeito sempre arrogante, sua túnica de veludo azul escuro brilhante e brega parece ficar destacada com os três delinions que o acompanham. O salão todo parece perplexo.

Delinions são os únicos seres das trevas que trabalham para o governo mágico, capazes de assumir o rosto ou formas de seres monstruosos até todos seus medos íntimos. O governo diz que os usam como guardas da prisão de Elim, o CAOS. Mas o povo sabe a verdade, eles servem para torturar e enlouquecer seus prisioneiros, ou usados contra qualquer pessoa que ameace a paz. Mas a questão é. Por que ele precisa deles?

Em meio a sua longa barba trançada, um sorriso se forma, mas não chega aos seus olhos, tão negros como um tubarão. Ele estende a mão para cumprimentar Vent que conversa com dois banqueiros e Marine.

Vent olha em seus olhos com desconfiança e aperta sua mão aveludada com um tecido prata estranho. Os delinions logo atrás, com suas túnicas brancas cobrindo seus rostos, suas mangas e bordas parecendo ter sido queimadas por um fogo negro. O salão está em uma onda de cochichos e olhares desconfiados.

Busco Arrow no meio das muitas mesas. Estava ele no lado oposto, assim como eu, sentado na mesa, sozinho. Seus olhos encaravam furiosos as costas do Mago. Eu via o ódio.

Aproveitando a distração do Mago, saí o mais discreta possível. Já faz alguns anos que eu não fazia isso.

Esgueirei-me atrás de uma pilastra, que escondia uma porta de grades douradas. Passando por ela, cheguei aos fundos do castelo.

Lá estavam elas.

Emolduradas pela noite, diversas, imensas estátuas de ouro, ocupavam o jardim. Representações dos Escolhidos em combate e seus títulos como homenagem aos falecidos. Meus olhos encontraram logo a estátua de minha mãe.

Ela erguia uma espada com a mão esquerda e encarava o nada com determinação. Nós éramos muito parecidas fisicamente. Tínhamos os mesmos cachos grossos, o mesmo queixo fino e as bochechas altas, com lábios cheios e grandes olhos azuis. Como poderíamos ser tão parecidas por fora, e tão diferentes por dentro?

Aqua White, a altruísta - estava escrito no mármore abaixo de sua estátua. Ela seria lembrada para sempre desta maneira, e sua filha seria lembrada como uma fracassada. Gostaria de saber o que ela diria disso...

Participar de uma competição tem o risco de perder e também a possibilidade de negar sua participação, é assim também em relação a competição dos Escolhidos. Porém, para um nascido-escolhido como eu, negar a participação ou até mesmo perder, é sinônimo de ser renegado pela sociedade. A perda na competição é menos uma super força e uma super velocidade protegendo nosso país.

Por conta do meu status de princesa, essa renegação seria muito maior. O povo de Atlan, o centro do Reino Água, colocaram cartazes de apoio para mim, crianças dizem quererem ser como a princesa protetora... não posso desistir. Não posso decepcionar meu povo.

Mas também não quero essa vida para mim. Meu avô também era um nascido-escolhido, e sua vida foi cheia de mortes e ameaças as pessoas a quem ele amava. Minha mãe lutou ainda mais por conta da Guerra das Quimeras na Era das Trevas. Minha família foi marcada pela perda e falta de paz. E eu seria mais uma geração a sofrer com isso.

Uma brisa brinca com meus cachos e um cheiro familiar chega a mim. Arrow.

Volto-me em sua direção, ele me olha da soleira da porta, a luz da lua o deixando com uma aparência angelical. Meus olhos não se demoram a voltar para minha mãe novamente. Somente agora notei as lágrimas silenciosas em minhas bochechas.

- Sei que não para de pensar em mim. Mas, me seguir já é estranho - o provoco para quebrar o silêncio.

- Eu não sabia que estava aqui - sua voz soa diferente, suave talvez. Ele caminha até mim e senta ao meu lado no chão, colocando as pernas pendendo para fora da varanda do castelo.

- Então o que faz aqui? - Questiono sem olhar para ele.

- Eu apenas... não consigo compartilhar o mesmo ar que o Mago por muito tempo - ele diz, e posso até sentir seu olhar sobre meu rosto, depois se voltando para minha mãe. Nos comparando - Vocês são assustadoramente parecidas.

- Somos - concordo. Mais ela era melhor, melhor em tudo. Queria tê-la conhecido, dizer tantas coisas. Mas principalmente, ser como ela, penso.

Era estranho como eu tinha sentimentos diferentes em relação ao meu pai e minha mãe. Eu sinto orgulho dela, sinto saudades do abraço que nunca realmente cheguei a ter, mas sobre meu pai, eu o amei, e continuo amando, mas sempre este amor será acompanhado pela mágoa dele ter me deixado.

Balanço minha cabeça como se quisesse fugir das sombras de minha mente.

- Posso fazer uma pergunta? - Digo.

- Isso já é uma pergunta - ele sorri para mim. E mesmo com toda aquela escuridão em meu coração nesse momento. Eu solto uma risada fraca.

- Estou faltando sério, Arrow.

- Meu Deus, já estamos íntimos! Você me chamou pelo nome! - Ele diz fingindo ter sido pego de surpresa. Se ele está tentando me fazer rir. Deu certo.

Minha risada ecoa na noite.

- Qual será o próximo passo? - Ele acrescenta abrindo um sorriso torto de parar corações. Eu rio mais alto e olho para o lado fugindo dos seus olhos.

- Como é o Centro? - Eu pergunto. O Centro dos Reinos é a escola mais frequentada, por todos os adolescentes de todos os reinos. Sou provavelmente a única adolescente de Elim que nunca estudou em uma escola de verdade, sempre tive aulas particulares no castelo. Consequência disto, meus amigos se resumem aos empregados do castelo, os guardas do castelo e todos os comerciantes da vila em frente ao castelo. Ou seja, minha vida social é resumida aos limites do castelo.

Arrow me olha sem entender e com um riso reprimido em seus lábios.

- É que amanhã é meu primeiro dia de aula. Na verdade, primeira vez que vou a escola...- eu me interrompo. Por que estou contando isso para ele? Ele é um completo desconhecido - Eu só queria saber o que devo esperar.

- O Centro é extremamente velho, era um antigo quartel general dos Escolhidos e muito grande. Os alunos dormem nas alas diferentes dependendo do Reino que origina, às vezes compartilham os quartos. No nosso caso, vamos dormir em alas diferentes dos outros, por sermos escolhidos. Enfim, tem muita gente legal e várias festas durante o ano, você vai gostar.

- Eu espero - digo abrindo um sorriso fraco.

- Porque não começou ano passado?

- Minha tia Marine, ela...

- Lilá! Estou igual lo... Arrow? Vent e eu estamos procurando vocês por toda a parte, o que fazem aqui? - Interrompe Marine meio ofegante na porta, nos olhando confusa.

Arrow abre um sorriso malicioso erguendo as sobrancelhas, pronto para dizer uma provocação esperta.

- Não importa! Venham! - Ela diz sacudindo a cabeça. Eu suspiro aliviada e Arrow ri do meu alívio. Marine abre caminho para Arrow ir à frente, seus olhos azuis uma tempestade de reprovação por ele ter feito Vent passar vergonha.

Voltamos a Grande Mesa, desta vez tendo o Mago presente na última cadeira. Vent se levanta e ergue os braços em ênfase.

- Obrigada por nos proporcionar tão bela festa, nada seria possível sem todos vocês - diz ele. Logo após receber as palmas dos convidados. Ele gesticula o dedo indicador para esquerda e direita, fazendo as portas do salão se abrirem.

Quando eu e Marine nos recolhíamos para a carruagem em meio as muitas pessoas, algo me fez virar o rosto, talvez uma brisa que corria pelo salão. Encontrei meu olhar com o de Arrow por um breve instante. E quando dei por mim estava sorrindo para ele, e ele para mim.

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