O escuro sempre assustou.
Não saber o que esperava, o que o barulho significava ou como resolveria a situação que surgia a cada passo. Seus pés descalços encontravam os galhos úmidos e as folhas amareladas de outono. O medo que seu progenitor colocava de toda a situação a sua volta sempre foi palpável, com um gosto pungente de sangue. As palavras que descreviam completamente os trabalhos do maligno e os resultados, como aquela linha trabalhava em consideração a linha branca e pura que ele mesmo sempre enaltecia.
Sua mente infantil gritava perigo, enquanto qualquer coisa que tivesse menção ao selvagem, a liberdade fosse veemente negado e colocado em um pedestal de negativo, de ruim. Tanto pelas religiões que teoricamente pregavam o bem e o certo. Todas aquelas doutrinas que tanto gritavam supremacia branca e falta de conhecimento.
Seus braços estavam presos categoricamente. Se levasse em consideração seu pouco peso, as amarras eram praticamente invisíveis. Com nós fracos e imagináveis. Sua mente nublada gritava magia, tinha sido hipnotizada para achar aquilo normal, o que já não categoriza o processo todo. A fogueira queimava alta ao longe, onde seguia o caminho predestinado de pedras e cacos de madeira, afiados como vidro.
Uma vida toda levada em volta de tecnologia e vida material, com um conhecimento tão pequeno no inimaginável, naquele poder tão primitivo.
Por sorte, as almas não eram de material tão sólido. O conhecimento ancestral ainda existia, por mais oblíquo que havia se tornado. O poder feminino ressoava por dentro de seus ossos, tão primitivo quanto a fogueira que queimava a sua frente.
O pouco que aqueles envolvidos conheciam faziam a dó de seu coração ressoar, enquanto todo o processo acontecia. O sangue coagulado e seco no caminho doía os pés cansados, que encaravam o ritual com um hábito esquisito e costumeiro.
Claro que os desabituados falariam que aquilo não passava de um ritual satânico, fazendo questão de entoar um dos nomes mais cristãos que existem. Uma das nomenclaturas que mais são usadas como parâmetro para religiões que não seguem nada do que dizem, e muito mais segue aquele que tem medo do que aquilo que dizem seguir. Maior o poder do medo do que da lealdade pobre e vazia. Maior o poder do medo do que daquilo que não se entende e não se pratica.
Os braços presos e a presa entregue contra a vontade era o símbolo daquilo que não entendia, daquilo que não fazia tanto conhecimento.
“Se prestassem atenção na pobre catequese.” Pensou a menina, que era usada como exemplo de algo tão banal e podre quanto aquilo. “Se escutassem o pouco do que lhe é ensinado.”
Chegou bem perto da pira de fogo, os pés descalços. Seu corpo quente graças ao fogo que crepitava e estalava metros acima. O vestido puído e toda a sujeira que seu corpo ostentava graças aos tratamentos e torturas que a própria igreja pregava.
O povo em volta, torcendo e gritando, enquanto a menina desistia da própria existência em troca de algo que pra ela era maior do que si mesma. As dores e as palavras. O olhar dos que colocaram-na na pira, que encarava o corpo com puro desejo.
Todas as palhas estalaram, enquanto o ar se fazia rarefeito. Não só a dor de todas as células do corpo que queimavam diante de toda aquela chama e todo aquele fogo. Não só a dor das peles descamando e dos tecidos se descolando de onde deveriam estar, mas também do calor que as labaredas traziam para dentro dos pulmões. Com o conhecimento atual, sabiamos que era o gás carbônico roubando todos as mínimas moléculas, cada oxigênio que sumia de dentro dos pulmões e virava toxicidade para o corpo.
Enquanto queimava sob a pira, os olhos chorando o pouco de água e se transformava em vapor, enquanto toda a dor se enraizava em alma e espírito, e todo o pouco de vida que se transformava um ser, o amor que evaporou junto às chamas e aos líquidos naquela pira de palha, madeira e carne. Uma culpa absurda assolava o corpo daquele que podia ter impedido o final apavorante a avassalador daquela cuja a vida servia unicamente para poupar aqueles que amava. A culpa daquele que podia solucionar todo o problema daquela pobre alma. Uma palavra que seria considerada como lei se tivesse sido a seu favor semanas antes. Evitaria um terrível fim. Uma culpa que corrompeu sua alma, e o fez jogar-se contra um precipício alto o suficiente para seu corpo ser desencontrado, e a alma ser perdoada por um padre cujo poder abrangia o que quer que colocasse a mão, tamanho era seu poder.
