Capítulo nove

Começar do início

Fui até o banheiro lavar o rosto e escovar os dentes antes de procurar alguma coisa para comer. Percebi que Conrado não estava em casa, e achei estranho sua cama estar toda bagunçada. Ele nunca deixava nada sem estar perfeitamente organizado.

Conrado chegou duas horas depois. Seu rosto estava com uma expressão sombria e seus ombros mostravam o quanto ele estava tenso. Sem nem olhar para mim, ele foi para seu quarto e bateu a porta. Fiquei em dúvida se deveria ir até ele e perguntar o que estava acontecendo, mas eu tinha um pouco de medo que ele fosse rude.

Quando a campainha tocou, eu me obriguei a esquecer meus pensamentos. Eu havia ligado para Lola na noite passada e ela havia dito que precisava falar comigo sobre algo importante. Eu estava com medo que o assunto fosse o casamento. Eu tinha medo de que ela entrasse no apartamento e jogasse na minha frente todas as mentiras que eu estava mantendo para esconder o quanto eu sou uma pessoa horrível.

- Sobre o que você precisa conversar? – eu pergunto depois que já estamos aconchegadas no enorme sofá de Conrado.

Lola morde o interior de sua bochecha, e isso me diz que ela está um pouco sem jeito.

- Não quero que você me leve a mal, está bem? – ela diz. – Se você diz que é amiga de Conrado eu acredito em você, mas...

Meu coração está apertado. Eu sou uma mentirosa bobona.

- Mas? – eu pergunto, porque não aguento de tanta ansiedade.

- Não pense que somos fofoqueiros, ok? Mas Céu viu você e Conrado discutindo na festa do prédio dele e disse que vocês dois não pareciam nem um pouco amigáveis.

Eu suspiro.

- Nós tínhamos brigado aquele dia – eu digo sem pensar e então lembro que não é mesmo uma mentira. Nós dois provavelmente trocamos algumas farpas, como sempre.

- É só isso mesmo? Ele é bom para você? Porque se ele estiver te maltratando eu juro que vou dar um jeito nele.

Eu abro um sorriso e tento esconder minha expressão de tristeza, que é o que eu estou sentindo. Não queria mentir para minha melhor amiga, mas eu não tenho escolha, porque não quero que ela pense que eu sou o tipo de pessoa que se casa para conseguir um papel em uma peça de teatro.

Eu, de fato, não sou uma pessoa que se casa por algo assim. Na verdade, eu não seria, mas no final das contas eu sou. Afinal, eu estou casada, não estou? Tenho 18 anos e estou casada.

- Sim, ele é bom para mim – digo. – Nós dois apenas não temos tanta coisa em comum.

Lola aperta minha mão e sorri.

- Eu ainda não acredito que você saiu do dormitório sem me avisar. Nós duas juntas poderíamos ter dado um jeito no aluguel e você ainda poderia morar comigo.

- Sinto muito por ter feito isso – eu digo tristemente.

Dessa vez não preciso fingir, porque estou mesmo triste. Não consigo nem imaginar o que acontecerá quando Lola descobrir que eu estou mentindo para ela.

- Sim, você é uma boba, mas que bom que está bem aqui!

Eu estou arriscando perder minha amizade mais antiga, por nada. Eu deveria ir agora mesmo contar ao coordenador que o casamento é uma mentira. Eu seria expulsa e Conrado perderia o emprego, mas pelo menos eu ainda teria Lola. Mas por que eu não consigo fazer isso?

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