Raven sempre acreditou que a solidão era o único lugar seguro. Depois de ser traída, espancada e marcada por quem chamava de amigos, ela aprendeu a desconfiar de todos. Entre pesadelos, remédios e o medo constante, sua vida se resume a tentar sobrev...
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O despertar veio como um soco no peito, seco e impiedoso. O ar era um peso morto nos pulmões, denso e úmido, impregnado de um fedor rançoso que se infiltrava na pele como veneno lento.
Cada músculo do meu corpo gritava em protesto, como se tivessem sido esticados até o limite e abandonados ali para apodrecer. A cabeça latejava em pulsos ritmados, uma dor surda que ecoava atrás dos olhos, pulsando como um tambor de guerra.
Minha língua grudava no céu da boca, seca e amarga, como se eu tivesse engolido cinzas. Tentei abrir os olhos, mas a luz fraca da lâmpada pendurada no teto — balançando preguiçosamente como um pêndulo de pesadelo — transformou o mundo em um borrão giratório, nauseante.
Pisquei devagar, forçando as pálpebras a cooperarem, e o quarto se materializou aos poucos: pequeno, sufocante, com paredes de concreto pintadas de um branco desbotado e rachados.
O chão era de cimento frio, marcado por manchas escuras que eu preferia não decifrar — sangue antigo, talvez, ou algo pior. Eu estava deitada em uma cama estreita, o colchão fino e manchado.
Não estava sozinha. O quarto abrigava mais três camas idênticas, ocupadas por sombras de desespero. Em uma, uma garota jovem de cabelos castanhos ondulados estava encolhida, a cabeça enterrada nos joelhos, o corpo tremendo em soluços silenciosos.
Ao lado dela, outra garota loira, com olheiras profundas e um hematoma roxo florescendo na clavícula, mal escondido pelo decote rasgado da blusa — acariciava seus cabelos com mãos gentis, mas trêmulas, como se o toque fosse a única âncora contra o abismo.
Seus olhos azuis piscavam rápido demais, vermelhos e inchados, sempre a um fio de um colapso total.
Na cama oposta, uma garota de cabelos cacheados encarava o teto com olhos frios e raivosos, os punhos cerrados sobre o lençol fino.
Ela era a única que não parecia à beira das lágrimas — em vez disso, exalava uma braveza gélida, como se o ódio fosse o único combustível mantendo-a inteira. Até que ela me viu.
— A novata acordou — disse ela, sem um pingo de simpatia, a voz rouca como cascalho. — Bem-vinda ao circo dos monstros. Durma mais um pouco se puder; o show começa logo.
Minha garganta arranhava como lixa quando tentei falar, a voz saindo em um sussurro fraco e entrecortado.
— Onde... onde estamos? O que... aconteceu?
— Não sabemos exatamente — respondeu a loira, com uma expressão triste, o nariz vermelho de tanto fungar, os olhos molhados e avermelhados. — Mas o que sabemos é que vamos ser vendidas como mercadorias. Roubadas da vida e jogadas no escuro para os piores tipos de compradores.
— Eu quero ir para casa... Estou com tanto medo — soluçou a garota encolhida na cama, os cabelos castanhos claros caindo como uma cortina sobre o rosto jovem e pálido. Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar, o corpo todo encolhido como se quisesse desaparecer.