Capítulo oito

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Voltei para o apartamento sem pressa. Eu não queria lidar com a fúria de Conrado. Dez minutos depois, quando eu estava de volta, estranhei ao perceber que a porta estava trancada. Tentei abrir novamente. Nada. Apalpei meus bolsos em busca de minha chave, mas eu estava de pijama. É claro que eu não estava com a chave.

- Conrado! – eu bati na porta e o chamei, tentando não fazer muito barulho.

Eu esperei, mas ele não veio. Deitei no chão para tentar ver alguma coisa sob a porta, mas não parecia haver alguém lá, já que as luzes estavam todas apagadas. Será que havia acontecido uma emergência e ele precisou sair com pressa? Conrado não trancaria a porta, ele sabia que eu já estava subindo novamente. Além disso, eu teria o visto saindo do portão.

- Conrado! – dessa vez eu gritei mais alto. – Abra a porta! Eu estou com fome!

- Eu vou chamar a polícia se você não calar a boca! – a voz feminina vinda de algum dos apartamentos me alertou. Bobona. Só estava falando isso porque não era ela que estava com fome.

Eu respirei fundo e bati na porta da vizinha, no 706, esperando que ela pudesse me emprestar um telefone. Ela era uma senhora simpática, com certeza me ajudaria. Quando ela me entregou o telefone, lembrei que eu não sabia o número de Conrado. Decidi então ligar para um chaveiro.

Fiquei sentada no corredor por uma hora até que o chaveiro chegasse para fazer seu trabalho. Meia hora depois eu consegui entrar e então fui correndo até meu quarto, pegar dinheiro para pagá-lo. Uma coisa que eu não esperava era ver Conrado em seu quarto, dormindo. Filho da mãe! Ele me trancou de propósito!

Paguei o homem que havia me ajudado e então fui diretamente à lavanderia. É claro que ele já havia colocado a toalha que eu havia jogado sobre sua cama, para lavar. Torci todo o tecido até que ficasse fino e firme. Entrei em seu quarto sem fazer barulho e parei em seu lado. Ele estava calmo. Conrado conseguia parecer bonito até mesmo dormindo, com seu cabelo castanho desgrenhado e sua boca levemente entreaberta. Bobão.

Eu segurei as duas pontas da toalha torcida e então a usei como um chicote molhado, batendo com força em seu peito descoberto. Ele estava sem camisa e imediatamente uma marca vermelha se formou em sua pele clara. Eu não esperei para ver o que aconteceria, porque ele abriu os olhos e pulou da cama, me perseguindo. Eu corri para meu quarto com meu coração disparado. Tinha certeza de que ele conseguiria me alcançar igual na outra noite e então não daria tempo para eu me trancar no quarto, mas deu. No instante em que girei a chave, ele bateu com força na porta.

- Abra, Zahara! – ele disse, chutando minha porta.

- Não vou abrir! Vá embora!

- Abre a droga da porta!

- Por que você me trancou para o lado de fora? – eu perguntei. – Eu estou com fome e vestindo pijama! Fiquei quase duas horas na rua!

Ele demorou para responder e então eu soube que ele estava provavelmente rindo.

- Você jogou uma toalha molhada na minha cama – ele disse.

- Mas antes de eu fazer isso você trancou a geladeira, o forno e os armários! Já falei que estou com fome!

- Mas antes de eu fazer isso, você havia deixado embalagens de chocolate espalhadas por todo o lado. 

Nós parecíamos duas crianças brigando.

- Isso é porque eu não sabia que você chegaria em casa tão rápido! – falo. Eu não estava com raiva, mas estava triste, porque estava mesmo muito faminta. Eu havia apenas almoçado naquele dia. – Eu estou com muita fome, Conrado.

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