Raven sempre acreditou que a solidão era o único lugar seguro. Depois de ser traída, espancada e marcada por quem chamava de amigos, ela aprendeu a desconfiar de todos. Entre pesadelos, remédios e o medo constante, sua vida se resume a tentar sobrev...
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O mundo ainda girava na minha cabeça, um carrossel lento de dor e náusea que me fazia duvidar se eu estava viva de verdade.
O cheiro químico do pano que pressionaram contra meu nariz persistia, um resquício acre que me deixava tonta e enjoada, como se o éter ainda corresse pelas veias.
Meu corpo balançava com o carro, o ronco irregular do motor sugerindo que atravessávamos uma estrada de terra esburacada, longe de qualquer sinal de civilização.
Tentei mexer os dedos, mas eles formigavam, pesados como chumbo derretido, e minha visão era um borrão cinzento.
Abri os olhos devagar, piscando para afastar a névoa, e o que vi me gelou: a noite lá fora era um breu absoluto, interrompido apenas por vultos de árvores que passavam como fantasmas ao lado da janela.
O frio infiltrava-se no carro como uma lâmina, arrepiando minha pele exposta.
Então, me lembrei: eu só vestia um pijama fino, de algodão leve, que agora parecia uma provocação cruel contra o vento gélido que vazava pelas frestas.
De repente, vozes cortaram o ar confinado — graves, altas, sem o menor esforço para disfarçar. Os sequestradores não pareciam se importar se eu ouvisse; talvez soubessem que eu estava fraca demais para reagir.
— Porra, essa vadia apagou de vez — resmungou o que estava no banco do passageiro, à minha frente.
Eu estava deitada no banco de trás, o corpo mole como trapo. Aos poucos, minha visão clareava: o braço dele, coberto de tatuagens desbotadas, revelava uma pele pálida.
Ele se mexeu, virando-se para mim, e eu fechei os olhos rapidamente, fingindo inconsciência.
Meu coração acelerou, um tambor surdo no peito. Senti um cutucão na coxa, seguido do fedor de cigarro e uísque barato em seu hálito quente.
— Olha o corpinho... Aposto que ela é apertadinha, daquelas que gritam na primeira estocada.
Outro riso gutural veio do banco da frente, ecoando como um trovão baixo. Mantive os olhos fechados, o corpo rígido de tensão, rezando para que não percebessem meu despertar.
Qualquer sinal de lucidez poderia piorar tudo — mas, se eu ficasse quieta, talvez pudesse captar algo útil, um detalhe para uma fuga improvável.
— Calma aí, seu tarado. Melhor a gente dar uma olhada direito nela. Sabe como é, esses riquinhos enfiam rastreadores nessas putinhas pra não perderem o rastro. Procura no corpo dela, ou vira ela de bruços e verifica se essa bunda gostosa esconde algum chip.
Meu estômago revirou, uma onda de pavor que me deu uma faísca de clareza apesar da fraqueza.
Forcei os olhos a se entreabrir uma fresta, simulando um torpor profundo, enquanto o coração martelava como um prisioneiro enlouquecido.