• Chapter Twenty-Nine •

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Queria sentir a boca dela novamente, como naquela madrugada

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Queria sentir a boca dela novamente, como naquela madrugada. Mas, dessa vez, seria na minha cama.

Sem perceber, escuto uma cadeira se arrastando e desligo o celular, guardando no bolso da calça rapidamente. Olho para frente e era Charles.

- O que foi, cara? Está nervoso?

Levanto os olhos devagar, engulo a raiva, o tesão, a culpa. Me esforço para ficar com minha expressão séria de sempre.

- Não é nada - respondo, ríspido.

- Você tá estranho.

Estranho? Estou um desastre ambulante. Com a cabeça fervendo de imagens que nunca deveria ter visto.

- Senta logo. - Digo, tentando parecer firme. - Vamos resolver logo esse assunto de uma vez.

Ele puxa a cadeira, mas fica me observando por um tempo, desconfiado. Charles sempre foi um dos únicos com cérebro nesse inferno de organização. Por isso, não posso dar brecha.

- O carregamento vai chegar pelo porto às 02h40, do lado oposto da cidade. Isso em dois dias. - Charles começa a dizer. - São 58 caixas, todas lacradas, direto da Sicília. Pistolas, fuzis, munição e acessórios. Tudo numerado.

Assenti com a cabeça, focando.

- A rota principal tá comprometida. Muito olho em cima da polícia e drones nas áreas centrais. Mas pensei em usar o desvio atrás do Terminal 32. Aquele caminho antigo, escondido, lembra?

- Lembro sim, e concordo. Aquilo passa por baixo das câmeras da zona leste. - Respondi, já mais centrado. - Quantos veículos?

- Quatro caminhões. Três com armamento e um de escolta. Enrico quer que tudo seja feito em silêncio absoluto. Sem falhas. Nenhuma exposição. Ele disse que, se algo der errado...

- Não vai dar errado, mas estou achando que tem pouca escolta para muito armamento vindo.

- Vou providenciar mais escoltas.

Assinto com a cabeça. Charles abriu o mapa no celular. Mostrou as rotas alternativas, os pontos cegos dos drones da polícia, os horários mais seguros.

- O que acha de sairmos às 01h40? Assim teremos uma hora de vantagem antes dos patrulhamentos aumentarem.

Assenti.

- Fechado. Organize os motoristas e a troca de placas. Vou revisar os rádios e a parte da comunicação amanhã cedo.

Ficamos ali afinando cada detalhe - cada desvio, cada movimento. Quando terminamos, ainda ficamos conversando por um tempo, até que ele precisou ir embora. Pagou a conta dele e saiu. Eu permaneci ali, bebendo o meu Whisky. Não estou com cabeça para voltar para o apartamento e encarar a cara deles.

Fico pensando se vou para o apartamento onde eles estão ou se vou para o outro, que fica no centro da cidade. Aquele onde eles estão é mais afastado e seguro para ela... então, o melhor é que eu fique longe mesmo. No outro.

Obscura TentaçãoOnde histórias criam vida. Descubra agora