Acordei com o travesseiro no chão e o peito vazio. A pia pingava e o cinzeiro transbordava com a dignidade da última semana. Acendi um cigarro que ela deixou na noite passada. Um tal de Vogue lilás. Tinha gosto de perfume barato e batom vencido, o que, de certa forma, era tudo que me restava dela.
Fumar virou meu jeito de beijar mulher depois que elas vão embora. Cada tragada é um lembrete de que, por algumas horas, alguém me achou minimamente interessante. O problema é que no fundo eu sabia que era mentira. Elas não me queriam. Queriam o silêncio, o vinho, a cama limpa. Eu era só um intervalo entre dois fracassos.
- Você é bom nisso - ela disse depois, enquanto se vestia sem me olhar.
- Em quê?
- Em ser triste.
Dei risada. E foi aí que soube que nunca mais veria aquela mulher.
Agora é terça. O bar abre só às onze. E eu tenho mais sete cigarros. Com sorte, sete lembranças. Com azar, só o gosto seco de um passado que não me aguenta mais.
Fiquei encarando o teto por uns vinte minutos. Ele não me disse nada.
Levantei, mijando sentado, como um velho cansado de disputar com a mira. Não tinha café. Tinha um restinho de vinho branco na garrafa que ela não terminou. Quente, azedo, meio doce - bebi mesmo assim. Era isso ou pensar. E pensar exige mais energia que eu tinha.
Coloquei a mesma camiseta de ontem. Camiseta boa é a que já sabe o teu cheiro. Lavei o rosto, passei um dedo na barba pra ver se ainda existia, e saí sem chave, sem plano, sem alma.
O sol batia como se me odiasse.
Andei umas quatro quadras. Os mesmos mendigos, as mesmas janelas fechadas, os mesmos cães magros se lambendo no canto. A cidade é um corpo cansado demais pra acordar. Eu era uma célula falida desse corpo. Um órgão extra.
Cheguei no bar 11h02. O garçom já tinha varrido metade da calçada e me lançou aquele olhar de "já começou, Raul?".
Eu sorri como quem responde "nunca parei, irmão".
- A de sempre? - ele perguntou.
- Não. Hoje quero algo que me salve.
- Temos cerveja morna e pastel congelado.
- Serve.
Sentei no canto de sempre. De costas pra entrada, porque quem espera não encara a porta. Acendi o primeiro cigarro da terça. Ainda tinha um pouco do perfume dela no filtro. Ou talvez fosse da minha memória viciada.
A cerveja chegou. Bebi como se fosse promessa.
Primeiro gole: amargura.
Segundo: alívio.
Terceiro: mentira.
Uma mulher entrou no bar. Cabelos presos, salto gasto, a bolsa parecia pesada demais pra quem já carregava tanta coisa no rosto. Olhou em volta, me viu, hesitou. Mas não sentou. Foi direto ao balcão. Pediu uma pinga.
Respeitei. Mulher que bebe pinga às 11h de uma terça não veio procurar elogio.
O garçom trocou um olhar comigo, como quem diz "sua cara". Eu ri.
Ela virou o copo, pediu outro. E aí, sim, olhou pra mim.
Olhar fundo. Daqueles que remexem algo morto dentro da gente.
- Tem fogo? - ela perguntou.
Aproximei, isqueiro na mão.
- Sempre.
- Pra mim ou pra você?
- Tanto faz. O incêndio é o mesmo.
Ela tragou e tossiu.
- Esse cigarro é horrível.
- Era dela.
- Quem?
- A que foi embora.
- E você fuma por quê?
- Porque ficou o maço. E a saudade é um tipo de teimosia.
Ela sorriu torto. E sentou.
Não pediu licença. Gente cansada não pede nada. Apenas ocupa espaços vazios. E eu tinha muitos.
Ficamos ali. Ela, a pinga. Eu, a cerveja.
Ela, tentando esquecer.
Eu, tentando lembrar.
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Sem Voz
Romance"Sem Voz" é o diário não declarado de Raul - um homem que vive à margem, mas nunca à toa. Agrimensor por profissão, andarilho por temperamento, ele atravessa os dias com um cigarro na boca, um baseado no bolso e pensamentos que ninguém escuta. Os di...
