Capítulo vinte e quatro: uma morte honrada e humana

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Capítulo vinte e quatro

Os nós de suas mãos estavam brancos de tanto apertar as extremidades da pia. Quando pensava em afrouxar o aperto, o tremor nos dedos retornava, e com medo do que poderia acontecer se soltasse por completo, Elizabeth continuou curvada sobre o lavatório do banheiro. Uma das estrelinhas falantes jazia largada no interior da pia, flutuando na água que criara. A boca de Elizabeth estava entreaberta; sua respiração vinha em estocadas, enquanto a dor em suas têmporas pulsava, implorando por algum alívio que não conseguia encontrar.

Nas primeiras semanas, considerou como poderia amortecer aquelas dores insuportáveis — manter-se ocupada era como dar munição às crises de enxaqueca, fumar aliviava apenas temporariamente e não conseguia imaginar de que maneira chegaria à Viryarthin e salvaria Taylor se estivesse bêbada o tempo todo. A maioria dos piratas, em alguma idade, desenvolveu um nível de resistência contra o álcool inimaginável aos cidadãos comuns. Elizabeth, contudo, sempre detestou a ideia de perder o controle sobre sua mente ou corpo.

De uma maneira irônica, era o que parecia acontecer: entre intermináveis horas de navegação, estudo de mapas e a criação do plano de tomada do porto com os demais tripulantes, pensamentos incontroláveis invadiam sua mente. Surgiam nos momentos mais improváveis — no meio da tarde, quando avistava uma pequena e bela ilha, e ela se pegava imaginando o que aconteceria se o navio colidisse e naufragasse ali.

Quando o pôr do sol sangrava no céu, imagens do corpo de Taylor coberto de sangue a perseguiam. Bastava um olhar para o rosto de Gabriel, e ela não conseguia evitar o pensamento de que a culpa era sua pela morte de Adrian, pela morte de Isobel — e de Du Yunwen, pobre Du Yunwen, que morrera pela vontade de um feitiço de Alessa para manter a própria Elizabeth viva.

Que direito tinha ela de estar em pé, de respirar livremente, de ousar seguir em frente como se nada tivesse acontecido, como se não visse o luto de Lúthienna, a qual nada sabia sobre a verdadeira natureza da morte de sua amada?

Enquanto Elizabeth dormia sozinha no quarto seu e de Taylor, tarde da noite, depois de horas com a cabeça latejando e vomitando no banheiro — com Willow enroscado aos seus pés, como se quisesse confortá-la de alguma forma —, ela se perguntava se realmente seria tão ruim assim não chegar até o fim da guerra. Desde que conseguisse tirar Taylor das garras de Nicholas e vingar-se da Companhia de Mérida Ocidental — depois de tudo isso, talvez não precisasse continuar a suportar o grande fardo sobre os seus ombros.

Claro, Elizabeth sabia que isso causaria uma dor imensurável em Taylor. Mas ela tinha apenas vinte anos, e seria perfeitamente possível que Taylor superasse essa dor e encontrasse alguém novo. Alguém que não fosse tão usada e quebrada quanto ela. Alguém mais forte, que não considerasse entregar a própria vida de forma tão... voluntária. Gabriel e Catarina comandariam o navio juntos. Teriam o auxílio de toda a tripulação. O Serpente da Alvorada estaria em boas mãos.

Ao mesmo tempo, a simples ideia de Taylor com qualquer outra pessoa lhe revirava o estômago — e, nos últimos dias, Elizabeth não tinha conseguido dormir nem um pouco. Além disso, não podia esquecer que ninfas se apaixonavam apenas uma vez na vida e não tinham um bom histórico quando se tratava de perder o amor de suas vidas cedo demais...

Sua respiração ainda estava ofegante quando Gabriel girou a maçaneta da porta do banheiro e a encontrou. Elizabeth não teve tempo de disfarçar a palidez do rosto, a saliva no canto dos lábios ou a umidade na ponta dos cílios ruivos.

— Ei — disse ele — O pequeno Beto veio desesperado atrás de mim. — Elizabeth não sabia como reagir, e não confiava no próprio corpo o bastante para acreditar que ele não lhe tiraria o fôlego de novo se tentasse falar. Então, fez a única coisa que podia naquele momento: enterrou o rosto no peito de Gabriel. Os braços dele a envolveram rapidamente, apertando seu corpo trêmulo. — Liz? O que está acontecendo?

Treacherous Sea • tswiftHistórias para pegar e não largar. Descubra agora