II

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Quando acordo, o avião de cartão que Tommy me construiu é a primeira coisa que vejo. Não consigo deixar de sorrir ao contemplar aquela obra de arte feita por um miúdo da segunda classe. Ele sempre gostou de aviões, apesar de nunca ter visto ou andado num a sério. Sabe somente da sua existência pelo pouco tempo de televisão que vê. Jamais conseguirei entender a sua paixão por estes meios de transporte, porém esforço-me por arquitetar teorias na minha cabeça. Talvez seja porque os aviões lhe parecem livres, voando de lugar em lugar, atravessando mares e oceanos, cortando as nuvens que pairam no céu. Liberdade. Algo que Tommy não tem por culpa da nossa mãe e que eu não tenho condições de lhe oferecer na totalidade.
Suspiro, mandando estes pensamentos negativos embora, que mal podem ser saudáveis logo pela manhã.
Afasto o lençol do meu corpo e levanto-me. Caminho em direção ao armário e abro a porta, fixando o meu reflexo no espelho que aí se pendura. Este é o único espelho que existe cá em casa contrariando, para variar, os princípios religiosos da minha mãe. Ela recusa que qualquer pecado permaneça vivo nestas paredes e por isso, não autoriza a presença da vaidade inscrita nos espelhos. Todos aqueles que eu penduradava por cima da minha cómoda acabavam estilhaçados dentro do contentor do lixo, por essa razão fui obrigada a escondê-lo dentro do guarda-roupa.
Escolho umas calças de ganga e uma t-shirt simples azul-bebé, calçando uns ténis brancos a condizer. Geralmente é a minha mãe que me compra a roupa e, mesmo quando me convida para a acompanhar, não me dá oportunidade de escolher por mim própria. Por mais que queira comprar um top, uma camisa decotada ou uns calções, eu sei que não posso. O meu ordenado não cobre tudo aquilo que gasto com Tommy se eu decidir comprar uma peça de roupa para mim.
Enquanto penteio o cabelo tomo a decisão de que, sendo o meu aniversário, sairei de casa para tomar o pequeno-almoço fora. Se não posso presentear-me com roupa ou maquilhagem, falo-ei com comida. É igualmente bom, ou melhor ainda.
Dirijo-me à cozinha, para verificar se é necessário adquirir alguma coisa do supermercado. Dou de caras com a minha mãe encostada à bancada, segurando uma caneca entre os dedos.
"Bom dia." Saudo o mais secamente que posso.
Vou de encontro ao frigorífico e, ao abrir a porta, examino o seu interior.
"Parabéns, Kelsey." Diz a minha mãe, numa voz suave. Demasiado suave. O assunto é raramente bom quando ela profere as coisas com este tom de voz.
Respondo sem olhar para ela. "Obrigada."
"Sabes" Começa a minha mãe. Reviro os olhos, já sei o que aí vem. "No meu décimo oitavo aniversário, os meus amigos do secundário fizeram-me uma festa surpresa numa mansão localizada numa quinta isolada. Foram imensas pessoas, amigos, amigos de amigos... Lá conheci o teu pai."
Respiro fundo para dentro do frigorífico. O que estará ela a tramar?
"Foi tão divertido" Continua, notando-se-lhe a nostalgia nas palavras. "Havia bebida, música, dança, penso que foi a melhor n-"
"Infelizmente não posso comemorar os meus dezoito anos como a mãe fez, não é verdade?" Interrompo, fechando a porta do frigorífico com mais força do que a desejada.
Fito a minha mãe de braços entrelaçados sobre o peito, com desafio no olhar. Que quer ela dizer com aquela história toda? Que mensagem subliminar estará escondida por detrás dela?
Ela sorri-me com o que se assemelha a ternura, mas que a mim me parece cinismo.
"És uma menina crescida." O seu olhar reflete... Orgulho? "Podes fazer o que quiseres."
As minhas sobrancelhas ligam-se em incompreensão. Que ato teatral é este? De repente decidiu representar o papel de mãe ideal? Deixou as suas obsessões religiosas de parte? Não entendo. Isto só pode ser o copo de água para a tempestade que vem a seguir.
Sinto que o ar fica retido nos meus pulmões e exerce uma pressão que sou incapaz de conter.
"Estou a dar-te autorização para convidares os teus amigos da escola para lancharem cá hoje ou outro dia qualquer à tua escolha."
O ar que guardava dentro do peito é liberto por uma gargalhada curta, mas sarcástica, que deixa os meus lábios assim que a minha mãe se cala.
"A mãe é tão engraçada!" A ira que me percorre o corpo é tão intensa que começo a vibrar. Os meus dedos enrolam-se em punhos e os meus braços tombam para cada lado. "Rouba-me todas as oportunidades que tenho de me divertir durante a minha vida inteira e agora expõe-me a isto?!"
Sinto o sangue a fervilhar debaixo da minha pele, o calor e a raiva a apoderarem-se de mim. Quero reunir todas as minhas forças, gritar-lhe que a odeio e o quanto me repugna.
Observo-a enquanto o seu olhar fita a caneca que segura nas mãos, com o pensamento nas minhas palavras. Sinceramente espero que a razão do seu silêncio seja o remorso a alimentar-se das suas entranhas e a culpa a tomar a sua consciência.
Não conseguirei estar a tão pouca distância dela por muito mais tempo. Viro-lhe as costas mas, antes de desaparecer, olho-a bem nas íris azuis.
"Tenho pena de si."
Caminho num passo apressado. Bato com a porta de entrada com tanta violência que uma senhora que ali passa fixa-me, assustada. Ignoro-a e atravesso o jardim até chegar ao passeio público, cuja direção acompanho. Forma-se-me um nó na garganta que não consigo reter e o soluço é expulso ao mesmo tempo que começo a chorar. Não é um choro calmo, nem fácil de esconder. Em vez disso desato num choro compulsivo que me coloca um peso no corpo e me faz tremer. Sou obrigada a rodear-me a mim mesma com os braços e a caminhar de cabeça baixa como se o frio de inverno me atacasse. Não quero que olhem para mim, nem que me vejam neste estado.
Mas porquê? Porque tenho que ter uma mãe que não age como tal? Que mal terei eu feito para viver uma vida tão miserável? Se ao menos eu pudesse fugir deste mundo por apenas algum tempo, se ao menos pudesse gostar de viver...
Algo embate contra a minha cintura e projeta-me em direção ao sol. Estou a voar, mas a gravidade não me deixa ir mais longe. Sinto as costelas a partir, uma após a outra, enquanto rolo sobre a superfície fervida que me queima a pele. O meu corpo tomba imóvel no asfalto. A minha visão tornou-se turva de repente e as cordas vocais apenas emitem sons desafinados. Sinto a dor martelar-me os ossos, os músculos e as articulações. A minha consciência mantém-se tão viva e saudável como antes, apesar de não saber o que está a acontecer. Talvez esteja a morrer, pois sinto o sabor metálico a sangue nos lábios e dentes. O meu interior não deve estar muito melhor, os órgãos internos parecem-me estar fora do lugar. Talvez esteja a morrer, pois o coração não bate. Se assim for, nada mais posso fazer para voltar atrás.
Fecho os olhos e adormeço com o rosto de Tommy no pensamento.

Woaaaaahhh muitas emoções hoje :p e então, gostaram? O que será que lhe aconteceu? Terá morrido? Ou estará viva?
Se querem as respostas devem continuar a acompanhar a história da Kelsey!!
Não se preocupem porque SPOILER ALERT o Calum aparece no próximo capítulo ihihih ^-^

Tenho muitas surpresas preparadas para vocês!
Não se esqueçam de votar e comentar, as vossas opiniões, boas ou más, inspiram-me a continuar e a fazer melhor!!

Beijinho e fiquem bem ^-^

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