Capítulo cinco

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Eu estou tão cansada que não escuto o despertador tocar. Faltavam vinte minutos para minha aula começar no instante em que eu acordei. Pulei da cama no mesmo momento. Eu estava determinada a mostrar a Conrado que eu seria a melhor atriz da turma e conseguiria o papel de Julieta sem sua ajuda fajuta e corrupta.

Corri para dentro do teatro com cinco minutos de atraso. Eu estava ofegante, porque precisei correr muito para chegar a tempo. Quase em tempo.

- Não tolero atrasos, Zahara – Conrado diz sem me olhar, na frente de todos. – Não é desse jeito que você vai conseguir o que veio buscar aqui.

Eu levanto minha mão para lhe mostrar o dedo do meio, mas me interrompo. Eu não sou tão mal educada. Conrado poderia tentar me provocar e me fazer desistir se não aceitasse sua proposta esquisita, mas eu não faria isso. Com certeza, eu não iria desistir.

- Não acontecerá novamente – digo a ele quando passo, sem olhar para seu rosto. Me junto aos outros alunos.

Conrado fica de pé em nossa frente.

- Vamos fazer alguns testes hoje – ele diz, e seus olhos param diretamente em mim. Ridículo. – Nesse semestre iremos interpretar uma adaptação de Romeu e Julieta, de Shakespeare, e quero ver como vocês se saem, porque preciso escolher os papeis.

Um burburinho enche o teatro. Todos devem estar desesperados, com medo de ter que interpretar a árvore. Ou a escada, tanto faz.

- Silêncio! – Conrado diz com a voz alta. Todos ficam quietos no mesmo momento. – Peguem o roteiro aqui comigo. Façam uma fila para isso. Vocês terão quarenta minutos para decorar a cena. Treinem em duplas. Quem errar no palco estará fora da peça.

Eu espero a fila diminuir e quando há menos de cinco pessoas restantes para buscar o roteiro, eu me levanto.

- Ei, eu já peguei um para você – Dionísio fala, sentando-se na cadeira ao meu lado. – Pensei que faríamos dupla de novo.

Eu me viro para olha-lo. Ele está um pouco corado.

- Obrigada.

O tempo do ensaio passa mais rápido do que eu gostaria. Estou à beira de um ataque de nervos quando o nome do primeiro casal é chamado. Felizmente, não somos nós. Uma garota pequena e um garoto muito alto vão ao palco. Eles reproduzem a cena muito bem, mas não há química alguma entre os dois. É até mesmo difícil imaginá-los como Romeu e Julieta.

Os casais que se seguem são como um borrão para mim, porque a cada um que passa, está mais perto de minha vez. Eu estou nervosa. Pela primeira vez em minha vida, eu estou nervosa por subir no palco. Os olhares penetrantes de Conrado não ajudam muito, fazendo com que eu me sinta ainda pior.

Houve um casal, talvez o quinto, ou sexto, que esqueceu das falas. Todos ficaram em silêncio, esperando para ver o que aconteceria. Eu estava sentindo muita vergonha alheia e dizendo a mim mesma que eu não poderia, de maneira alguma, esquecer as falas e passar pela mesma humilhação. Conrado balançou a cabeça e disse que os dois estavam fora da peça, porque ele estava ali por atores de verdade. Eu achei um pouco cruel o que ele fez, porque pode acontecer a qualquer um, esquecer as falas. É normal. Ainda mais quando tivemos tão pouco tempo para ensaiar.

- Zahara e Dionísio – Conrado chama, entediado. É a minha vez. Faltavam apenas dois casais para se apresentar, mas é claro que eu não seria deixada por último.

Dionísio me olha com um sorriso e estica sua mão para mim.

- Vamos, Julieta? – ele pergunta.

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