Levantei-me meio sem jeito do chão, não conseguia ver o rosto dele, ele usava um capuz que tampava todo o rosto. Não tinha nem como descrevê-lo. Ele estava com as mãos nos bolsos da jaqueta. Acabei me sentindo desconfortável, mesmo não vendo os olhos dele sabia que ele estava me encarando.

Tentei formular mentalmente alguma resposta para o que eu supostamente estava tentando fazer, ele devia estar começando a achar que eu era alguma bisbilhoteira ou alguma coisa parecida.

— D-desculpe. E-eu não estava bisbilhotando. Só... Pegando a folha do meu... — não achei melhor dizer diário e se ele desse na cabeça de ler? — Caderno.

Acreditava profundamente que ele não tinha caído nessa, mas pelo menos tinha tentado, não era bem uma mentira já que na maioria do tempo eu o usava mais para anotações.

Ele mexeu o ombro, mas não disse nada. A alça do meu vestido caiu meio de lado e percebi que ele mantinha a cabeça levantada, mas ainda sem deixar transparecer sua face. Não tinha duvida que ele estivesse olhando minha marca de nascença que ficava perto da clavícula. Eu não gostava muito daquela marca, tinha impressões ruins sobre ela. Logo a tampei.

Mesmo com meu movimento repentino, ele continuou parado onde estava, pensei em fazer uma abordagem diferente, era obvio que ninguém gostava de pessoas bisbilhotando sua casa, talvez ele estivesse com uma primeira má impressão de mim, e esse não era um jeito muito bom de começar a conhecer as pessoas. Então tentaria começar do jeito convencional: as apresentações.

— Meu nome é Mhylla. Mudei aqui pra frente hoje. — Disse, estendendo a mão para pegar na dele.

Ele abaixou a cabeça como se estivesse olhando a minha mão e depois se virou indo para a porta da casa dele.

Era obvio que não daria certo.

— Eiii! Não poderia ser mais educado? Você não fala?

— Não devia estar na rua há essa hora. É perigoso. — Disse ele

É, e ele fala. Aquela voz... Era calma, atraente e sedutora. Acabou me deixando paralisada, poderia escutá-lo falar o quanto quisesse...

— Não! O que estou pensando? — disse balançando a cabeça negativamente

— O que? — perguntou ele

— N-nada. Pensei alto.

Como eu poderia pensar aquilo? Eu nem o conhecia e nem sabia como ele era. Mas adorava o que estava vendo, mesmo sem conseguir ver muita coisa, ele era alto, e mesmo por trás daquela roupa escura, dava para ver a forma perfeita dos músculos dele.

— Ah! Vê se não mexe mais aqui. Eu não gosto de pessoas na minha casa e seria um desconforto ter que te falar isso de novo.

— Só estava pegando a folha do meu... Caderno.

— Não importa. — Ele falou, a voz dele estava tranquila.

— Poderia pegar o meu diário? Caiu ai dentro. — Opa...

— Acho que não. — Respondeu ele e meu queixo caiu.

Como assim não? O diário era meu, mas a verdade era que eu não estava tão surpresa com a resposta dele.

— Por que não?

— Por que eu não quero. Você entra e pega. Tem as suas mãos, pode usá-las.

— Você também. — Insisti

Nossa! Esse era o vizinho mais estranho que eu já conheci.

— Você pega. E depois vai embora. Como já disse, não gosto de ninguém na minha casa. — Ele entrou e fechou a porta.

— Mal-educado.

Será que dava para ele ser mais estranho? Eu nem sabia o nome dele, com certeza ele odiava pessoas na casa dele, também não era pra menos, em um lugar como aquele qualquer um teria desconfiança.

Eu entrei e peguei o meu diário saindo dali rapidamente. Abri a porta do meu quarto e me tranquei lá dentro. Abri o meu diário logo em seguida colocando a chavinha de volta no meu colar e colocando no meu pescoço.

Querido Diário,

Eu nem sei por onde começar. É tanta confusão! Primeiro essa mudança repentina e louca para uma cidade digamos um tanto estranha. Cadê o sol? Quer dizer, eu sempre preferi o tempo de chuva, mas o sol também não é ruim.

Desde a hora em que cheguei até agora, não me lembro de se quer um minuto ter visto o sol, sei que muitas cidades são naturalmente chuvosas, mas isso não quer dizer que de vez em quando elas não veem o sol. Nunca fui de gostar do verão, sempre preferi o frio, o tempo calmo e todo o pacote que vinha junto a ele, mas vou confessar que sinto um pouco a falta do sol. Considerando tudo, ainda não está em tempo de julgar a cidade, porque faz pouco tempo que eu cheguei e ainda não sei muita coisa sobre ela.

Fora tudo isso, ainda tem o vizinho...

E o vizinho? Nossa! Como ele é estranho, e um pouco mal-humorado, mas tem alguma coisa no jeito dele que... sei lá... Parece diferente.

Outra situação bem estranha foi quando escutei aquele sussurro. Melissa. Será que foi mais uma criação da minha cabeça? Espero que meu primeiro dia de aula na escola daqui seja legal.

Assim que terminei de escrever no diário, tranquei e coloquei de baixo do meu travesseiro.

Depois que peguei meu pijama e estava para fechar a janela do quarto, vi uma aranha e acabei me assustando, no processo acabei pulando para trás e sem querer quebrando um pedaço do chão de madeira. Não! Eu não sou gorda, pelo contrário, eu era até magra, algo que com certeza tinha sido herdado da minha mãe, assim como a cor dos meus olhos e o cabelo, eu tenho o cabelo castanho escuro e grande até a metade das costas e olhos cinza, minha altura é mais ou menos 1, 68, quase a altura da minha mãe.

O problema não era comigo, o problema era o chão que estava velho mesmo, tentei ignorar esse fato, mal tinha chegado na casa e já estava quebrando as coisas, mas me dei um crédito porque a culpa não era minha que meus pais tivessem escolhido uma casa um pouco velha e não tinham reformado antes de se mudarem para ela.

Esse era mais um efeito da pressa, meus pais sempre faziam as coisas repentinamente, muitas vezes isso poderia ser bom, mas no caso da casa não foi, eu tentava pensar que eles tinham tempo para mandar fazer uma reforma ali antes de termos nos mudado, mas quando os negócios deles tinham relação com o trabalho, nunca havia muito tempo.

Abaixei-me para ver o estrago que tinha feito quando vi alguma coisa, parecia bem velho e desgastado, estava preso entre as madeiras, era um diário. Senti novamente um arrepio e uma sensação de déjà-vu, abri e vi o nome.

Era aquele nome que eu tinha escutado lá fora, Melissa.


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