Canção do Incubus

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Cada vez que se preparava para entrar naquele palco sentia sua ansiedade e excitação aumentarem. Sempre, sem exceções. Talvez pelo fato de estar apenas nos bastidores, enquanto Rae apresentava a banda ao público, e já poder ouvir os batimentos cardíacos tão ritmados e característicos deles, dos humanos, aquela harmonia sinfônica que o ensandecia. Também podia ouvir as outras criaturas que ali frequentavam, suas melodias erráticas e sem sensualidade, nenhuma delas capaz de lhe atrair como eles. Uma boa diversão, talvez, mas não uma boa degustação. Porque apenas a humanidade evocava da natureza uma energia única, uma fonte de poder completa, que se usada da maneira correta poderia tornar qualquer criatura não apenas imortal como também indestrutível.

Era nisso que ele acreditava. E também o que o mantinha vivo há quase 500 anos.

A longevidade era uma dádiva entre os seus iguais. A imortalidade, no entanto, não. E a maioria dos demônios descobria cedo que precisava lutar para sobreviver em meio às guerras e carnificinas típicas de sua raça, pois entre eles força e inteligência não eram uma equivalência. Quanto mais forte um demônio, menos inteligente ele seria. Tudo o que restavam aos desfavorecidos era equilibrar essa conta usando energia externa, em geral conseguida através dos pactos com almas, rituais de sangue ou, em seu caso, através do sexo.

E a boate Paradisum, sem dúvida, era o melhor lugar para se encontrar vítimas para tais ações. Conhecida como o local onde qualquer integrante do "Mundo Abaixo" queria estar, aquele espaço abrigava todos os tipos de alianças e negócios possíveis, ilícitos ou não. Era também o único lugar onde se poderia encontrar de tudo, desde seres fantásticos a mercadorias produzidas e comercializadas além da compreensão humana. Local considerado ideal para diversões e distrações, que iam desde jogos de azar envolvendo mais do que apostas com dinheiro, como virgindades ou pessoas propriamente ditas, a pactos pagos com sangue e almas. Era também onde o desejo sempre falava mais alto; onde a sedução rondava cada mesa de bar ou de apostas; onde o prazer quase era oferecido em bandejas aos seus clientes.

Chamada por muitos de "O Equilíbrio", por ser comandada pelo anjo – caído – Mael e pelo demônio Rae, o lugar ganhara credibilidade para ser considerada como um local neutro de reuniões. O ponto que ligava o Céu ao Inferno, por assim dizer, era o único lugar onde um humano poderia – consciente ou não – se deitar com anjos e demônios, com elfos e ninfas, feiticeiros ou vampiros, lobisomens ou fadas. Todos os gostos, todos os sexos.

E ali, e somente ali, poderia ser vista a banda de demônios incubus que agora adentrava o palco e começava a ditar o ritmo sensual da noite com suas canções, conduzindo as conquistas alheias com seu som afrodisíaco. E, é claro, também seduzindo suas próprias vítimas com melodias quase hipnóticas e que, por diversas vezes, pareciam fazer sexo ali mesmo com seus expectadores, sejam eles homens ou mulheres. Pois era assim, em meio a esse ritual de luxúria e lascívia, que Babel decidia o escolhido da noite para alimentar seu desejo. Aquele que teria sua energia vital drenada, para que assim sua jovem e imortal aparência não se desfizesse.

Enquanto cantava sobre beijar seus lábios e devorar sua carne, o vocalista observava a pequena plateia de humanos tolos que insistia em aparecer dia após dia, alguns não acreditando nos rumores que cercavam o lugar. Outros, mais tolos ainda, procurando ser parte deles. A jovem loira na primeira fila, uma garota pequena de olhos escuros brilhantes e cachos, parecia entregue à sua música, ressoando em resposta como poucas de suas vítimas já haviam feito. Tudo que precisava fazer era querê-la.

Entretanto, não era ela que queria. Não naquela noite. Não com os batimentos tranquilos do jovem e despreocupado humano de não mais que 25 anos encostado ao balcão do bar quase explodindo em seus ouvidos.

As lendas sobre sua raça eram antigas, mas nem sempre certas. Afinal, quem em sã consciência acreditaria que um ser como um incubus, que pode viver eternamente apenas da energia sexual alheia, se limitaria a APENAS mulheres? Em especial quando homens, jovens homens cheios de desejo, tinham tanto a oferecer? Belos corpos, sensações intensas, uma energia muito mais poderosa e concentrada... Seria um desperdício sem precedentes, óbvio. Em geral demônios não eram tão apegados a estereótipos "morais" quanto os humanos, mas, sim, havia também entre eles (e também em grande parte entre os anjos) aqueles que não gostavam de tamanha liberdade sexual.

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