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1. Uma xícara de café

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Miguel agarrou Dora pelos braços com força e a sacudiu violentamente, gritando:

-Vamos me diga!!! Quem é que está fazendo mal a você? Quem é? Eu não aguento mais. Eu não aguento mais. Você precisa me dizer.

Miguel desmoronou em lágrimas brutais que lhe feriam a alma e lhe despedaçavam por dentro. Havia muito mais que Miguel ainda não sabia, sequer desconfiava. Dora pegou nas mãos de Miguel o olhou nos olhos e lhe disse mais uma vez:

-Eu não sei, Guel! - Miguel não acreditou. Arrancou violentamente suas mãos, olhou com fúria para Dora e disse:

-É ridÍculo você protegê-lo. É seu ex-namorado, não é? Pode falar, eu sei que é ele. Deve ser ele...

-Eu não sei quem é- disse Dora com os olhos cheios de lágrimas.

-Dora, me diga quem é!

-Eu não sei, Guel- sua voz era tão baixa que quase sumiu.

-Olhe para você, Dora. Vamos, por favor, veja. Olha isso! - disse Miguel apontando para algumas feridas antigas - Não é possível que você não saiba quem foi que fez isso com você. Não é possível! Não minta para mim!

-Eu não sei. Eu...

Dora parecia que queria dizer mais alguma coisa, porém parou subitamente de falar. Ela se aproximou de Miguel, tentou abraçá-lo, mas ele se afastou de Dora e disse apenas:

-Eu não aguento mais.

Miguel se foi. Essa tinha sido a última vez que Dora tinha visto Miguel. Dora pensava sempre nele. Ela aguardava o dia que ele voltaria. Era apenas uma questão de tempo, seus frios olhos azuis carregavam essa certeza. E, enquanto se olhava nua no espelho, passando pomada em suas cicatrizes, a lembrança de Miguel era ainda mais forte. Dora sorria. Ela sabia que chegaria a hora dele abraçá-la novamente, sentiria suas cicatrizes, a pele dura e disforme, ele iria sofrer, pois a amava e, então, ela o consolaria de suas próprias dilacerações. Ele me ama de verdade, pensou com um sorriso orgulhoso no rosto.

Foi por pensar em Miguel que Dora vestiu-se, foi até a cozinha e colocou água para ferver. Já fazia seis meses que Dora estava com Miguel. Ela sabia que Miguel estava no limite de sua tolererância, mas ela entendia que o amor era capaz de superar qualquer obstáculo.

Dora olhava seu café sem tocá-lo, enquanto se lembrava do dia em que Miguel falou com ela pela primeira vez. Tinha sido naquela livraria antiga e charmosa do centro da cidade, perto do Mosteiro São Bento, que Miguel frequentava nos finais de semana. Dora lembrava-se de Miguel, encantador, lindo e seguro de si, riu ao se lembrar de que como seu bronzeado destoava do ambiente intelectual da pequena livraria. Outro sorriso quis brincar em seus lábios quando se lembrou de Miguel aproximando-se dela com seu jeito maroto de garoto de praia e perguntando com seu irresist'vel sotaque carioca se ela sabia onde ficavam os livros de romances. Ela lembra que sorriu, perguntou qual livro ele estava procurando e disse:

-Eu não sei. Estou procurando um romance, pode estar em um livro, pode estar por aí, pode estar bem aqui na minha frente- ao dizer essa última parte, encarou-a com muito interesse.

Dora lembra que depois disso Miguel a convidou para o primeiro café, daí muitos outros cafés vieram. Miguel sempre teve a impressão que conquistara Dora, o que ele não sabia, sequer desconfiava, é que Dora já o queria há muito tempo. A vida tinha sido doce para Miguel até as primeiras feridas aparecerem pelo corpo de Dora. Dora sabia que tinha sido responsável por tirar o brilho daquele lindo menino do Rio. Quando o conheceu, ela recordava-se bem, ele tinha uma luminosidade das pessoas que são felizes e leves, mas agora carregava em seu olhar a escuridão que trazia em seu espírito. Dora lhe dera isso. Ela sabia que tinha matado a alegria de Miguel. Tinha-lhe retirado a leveza da vida, que agora carregava como um fardo sobre seus fortes ombros. Foi somente após alguns instantes que percebeu que a campainha tocava incessantemente. Dora perdida em seus pensamentos recobrou a consciência e correu para a porta. Antes de abrir ela já sabia: era Miguel. Dora abriu um sorriso. Suas olheiras marcavam noites de insônia e ele trazia em seus olhos aquela escuridão que Dora lhe dera. Miguel nada disse apenas abraçou Dora bem forte, só depois é que falou:

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