4. Problemas

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Trouble blew in on a cold dark wind
It came without no warning
And that big ol' house went up for sale

- Ivan Moura?

Eu franzi a testa e encarei aquela mulher de cima a baixo, demorando devidamente no decote dela e eu acabei por ficar com menos raiva por ela ter interrompido o meu jogo com a campainha. Sorri maliciosamente para ela e isso pareceu deixa-la ligeiramente desconcertada porque ela deu um passo para trás.

- Sim. - Eu respondi, ainda analisando-a. - Meus amigos mandaram você?

Ela meneou a cabeça para mim e pareceu realmente confusa. Talvez eles tivessem dito a ela para ela se fingir de tonta, pedir um pouco de açúcar ou coisa assim.

- Seus amigos? - Questionou. - Por que seus amigos mandariam uma mulher estranha falar com você?

No momento em que ela pronunciou aquela pergunta e eu arqueei minhas sobrancelhas, ela se arrependeu e corou.

- Pelo meu aniversário, talvez? - Eu questionei. - Você trouxe um bolo ou algo assim?

De alguma forma, eu acabei dando por mim que aquela mulher, por mais que estivesse vestida espalhafatosamente, não era uma prostituta. Não fazia ideia do que ela fazia ali, mas tentei consertar minha gafe anterior.

Ela pareceu perceber que eu estava um bocado nervoso e tentando consertar a imagem anterior que eu tivera dela, pois sorriu levemente.

- É seu aniversário, senhor? - Ela questionou-me, educadamente.

Achei que eu tinha que ter percebido antes que ela estava sendo educada e polida demais para uma prostituta. Estava um bocado envergonhado, na verdade. E se ela fosse uma nova vizinha e a síndica tivesse apenas me mencionado meu nome porque eu morava no mesmo corredor ou algo assim?

- Amanhã. - Eu disse, com a voz fraca e perdido em pensamentos. Pigarreei. - Amanhã é meu aniversário.

E ela sorriu, docemente, como se aquela fosse a melhor notícia do mundo para se ouvir e passou os dedos pelo cabelo, parecendo incomodada com algo. Comigo e com as minhas insinuações desacertadas, era claro.

- Bom... Eu sinto muito não ter um bolo ou ser seu presente de aniversário. - Ela parecia brincar, mas não soou como brincadeira. Soou como se ela não tivesse realmente o costume de se fazer uma brincadeira como aquela, mas estivesse tentando de verdade parecer engraçada, então eu sorri, meio sem graça. - Mas eu posso entrar?

Ela mordeu o lábio, completamente sem jeito e mesmo sem eu saber quem era ela ou o que ela fazia ali, eu abri espaço para ela entrar no meu apartamento. Afinal, que perigo uma mulher daquele tamanho podia representar?

Ela passou por mim e eu fingi que ela não reparava em cada resquício de bagunça que tinha em meu apartamento. Disfarçadamente, enquanto ela avaliava um copo sujo de café ao lado do telefone, eu chutei uma latinha de cerveja para debaixo do sofá. O barulho a fez me olhar e sorrir como se ela soubesse exatamente o que estava fazendo. Aquele olhar parecia com o da minha mãe e aquilo me deixou um bocado sem graça. Muito desconfortável, eu acenei para ela se sentar no sofá e ela puxou a saia para baixo e sentou-se logo em seguida. Sentei-me na poltrona ao lado do sofá porque achei que seria menos constrangedor para nós dois.

- Bom... - Eu murmurei, sem saber exatamente o que dizer sobre a situação e sem entender exatamente o que aquela mulher queria.

Talvez ela fosse realmente meu presente de aniversário e só fosse uma ótima atriz, mas não parecia.

Ela olhou ao redor, mas não estava mais com aquele olhar de mãe-avaliando-a-bagunça. Parecia, na verdade, procurar alguma forma adequada de se dizer. Seja lá o que fosse, parecia extremamente sério.

Preciosa [DEGUSTAÇÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!