3. Estranhos

4.7K 367 7

What do you say to taking chances?
What do you say to jumping off the edge?
Never knowing if there's solid ground below

- Não precisa se preocupar, querida. - Aquela deveria ser a quinta vez que eu falava algo parecido para Safira.

Seus olhinhos magoados brilharam em minha direção, passando os dedos pelos seus cabelos ralos com mais um tufo soltando em suas mãos. Sorri de leve para tranquiliza-la, mas isso nunca era o suficiente.

Duas enfermeiras já haviam me dito que era melhor raspar a cabeça para evitar os chumaços de cabelo que caiam dia após dia. A faxineira também havia me dado um toque enquanto Safira fazia mais uma sessão de quimioterapia.

Mas como eu diria para uma adolescente de onze anos que ela tinha que cortar todo o cabelo?

Devia ter mais de uma semana que eu não via a minha cama, mas era primordial que eu ficasse ao lado dela todo segundo. E Safira não melhorava.

O que mais me irritava de tudo, naqueles meses de tratamento sem fim, eram as mudanças nela. Tudo o que ela fazia era demonstrar os efeitos colaterais do tratamento, sem nenhum misero sinal de melhora, de mudança, de nada.

Eu podia entrar em pânico a qualquer momento.

- Eu quero cortar, mãe. - Ela me disse. Franzi a testa. - A Diana disse que é melhor.

Pisquei demoradamente e concordei com a cabeça. Diana era um ano mais nova e fazia o tratamento há um pouco mais tempo que Safira. As duas tinham pegado amizade bastante rápido e conversavam o tempo todo por mensagens, computador e, quando podiam, pessoalmente.

Diana estava melhorando, ao contrário de Safira. Ela estava em casa depois de uma série de sessões de quimio e radio. E Safira mal podia dar uma volta nos jardins.

- Se você acha melhor... - Disse-lhe, acariciando seu rosto.

Eu estava desesperada por uma solução. No mês anterior, procurei em alguns dos meus livros sobre leucemia, um dos médicos responsáveis por Safira e perguntado por transplante de medula. Lucas, Lavínia, eu e alguns amigos nossos, havíamos feitos testes e nenhum havia dado positivo.

Então o médico inscreveu Safira para procurar por um doador, mas um de meus livros havia me informado que era muito difícil encontrar um doador compatível que não fosse um dos pais ou irmãos.

E eu estava com uma ideia louca na cabeça.

- Você acha que eu vou ficar bem, careca? - Questionou.

Sorri, encarando Safira tentando se olhar no pequeno espelho em suas mãos. Mais um pouco de cabelo escorregou pelos seus dedos e ela sacudiu sua mão com raiva, deixando-os cair no chão.

- Claro que vai. - Eu disse-lhe.

Ela pulou da cama com uma naturalidade assustadora, como se não estivesse frágil e enjoada o tempo inteiro. Levei minhas mãos automaticamente para as costas dela, preparada para ampará-la a qualquer momento.

- Vamos! - Disse totalmente decidida.

Eu ri e a segurei, abraçando-a e beijando o topo de sua cabeça. Sempre tão forte, tão independente. Era complicado vê-la doente e lutando pela vida, sem nem conseguir sair do lugar.

- Você está muito apressada. - Eu disse. - Tenho que pedir pra alguém... Seus tios vão querer estar aqui também. Nós podemos fazer isso hoje à noite, o que você acha?

Safira não ficou muito feliz com a minha sugestão, fez bico e careta, mas não havia muita escolha para ela. Sorri e apertei seu nariz, beijando sua testa mais uma vez.

Preciosa [DEGUSTAÇÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!