Eu não me importava em sentir dor de novo, eu só não queria me sentir sozinha como eu me sentia agora.

Desde os meus doze anos, Max estava ao meu lado. Ele me fazia agüentar todos os abusos que eu sofria pelo meu pai e ele me apoiava. Ele que me tirou daquilo e também foi ele que me deu casa, abrigo, comida e todo o amor que eu precisava.

Foi a ele que eu entreguei minha alma. Meu corpo já era por demais mutilado e arrasado pra ser entregue puramente a ele, minha alma foi tudo que eu pude oferecer. E ele a usou bem, cuidando de mim como jamais eu havia sido cuidada. Já o meu corpo... Não posso dizer que dele fora feito um bom uso por ninguém, muito menos por ele.

Mas meu coração gritava e eu preferia qualquer outro tipo de dor àquela. Ela me consumia por dentro e me matava. Qualquer outra dor sarava em alguns dias, essa era do tipo que poderia levar a vida inteira sem curar de verdade e eu não a queria. Eu queria Max. E era só isso. Não deveria ser um pedido muito grande pra quem já sofrera tanto quanto eu... Ficar com que a gente ama deveria ser o prêmio final. E eu tinha acabado de perceber que nenhuma história tem final feliz. Ou ela continua após o tombo, como comigo, ou seu fim é abrupto e cruel, como ocorreu com Max.

Morto em um acidente no exercito. Um acidente que ninguém contava como foi ou quem fora o culpado por ele. Só diziam que ele morreu em serviço à pátria. Grande bosta de patriotismo que nunca serviu pra nada, nem na minha vida, nem na de ninguém.

Eu fechei os olhos, me inundando de memórias não queridas. Os meses mais difíceis da minha vida, escondida nos galpões do exército britânico. Sendo abusada dia após dia por homens das mais diferentes classes que, ao final do ato, me davam comida. Ou levavam dinheiro ao Max para agradecer o serviço que eu havia feito por eles. Idiotas.

E depois quando eu fui descoberta, tendo que sair dali, as coisas começaram a ganhar cor e se arrumar da forma que eu queria e sonhara. Era esquisito ganhar uma pequena casinha próxima à concentração e ver vários homens que abusaram de mim no povoado e ter que cumprimentá-los como se nada nunca tivesse ocorrido. Mas também era bom porque Max podia me ver sempre que queria, não mais escondidos e não mais ao léu como eu ficava. Era logo que ele terminava de se deliciar de prazer. Eu não o ansiava pela dor, mas quando ele se ia, era ruim. Eu sempre achei estranho.

Mesmo assim, aceitei seu pedido de casamento. Ele era a melhor pessoa que eu já havia tido na minha vida, ele cuidava de mim, ao contrário de todo o resto, que apenas queriam me ver ao chão, arrasada, molestada, abusada, morta.

Como eu iria viver sem ele agora?

Eu sequei minhas lágrimas com força, ouvindo alguém me chamar sem me ater a quem era. Era a hora de dizer adeus para sempre.

Eu voltei para o lado do caixão chorando toda a água que eu havia ingerido. Enquanto eu estava lá, o rosto do meu amado foi tampado por uma grossa tampa de madeira.

- Adeus - Eu sussurrei, completamente falhado - A-D-E-U-S! - Eu gritei, me encolhendo. Algum braço passou por volta de mim enquanto eu me retorcia em lágrimas mais uma vez. Eu teria me preocupado, com toda a minha experiência ruim, se eu não identificasse que aqueles eram braços femininos.

Soluçando, eu me pus a abrir os olhos e tentei engolir o choro, meu rosto escondido nos cabelos da pessoa que eu diria ser mais próxima a mim, minha vizinha - bastante irônico, talvez -, Lavínia. Ao lado dela, um dos homens mais honrados que eu já conheci - e eu não conheci muitos -, seu marido Lucas. Ela apenas me abraçava e me dizia palavras que deveriam me confortar, mas não conseguiam. Ele nos encarava indeciso se deveria nos pôr a andar ou deixar-nos e seguir sozinho, o caminho até a cova onde eu perderia a minha razão de viver.

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