1. Feridas

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When your day is long
And the night the night is yours alone
When you're sure you've had enough of this life

Meus olhos ardiam, enquanto o olhava deitado, feito um anjo dormindo com dezenas de pessoas encarando-o, como se ele fosse superior, especial. E, mesmo me repreendendo, me achando tola, eu esperava que ele se levantasse e viesse me abraçar, como ele sempre fazia, me falando que era só um susto, que tudo ia ficar bem.

Mas ele nunca mais faria isso. Pela primeira vez, em toda minha vida confusa, eu estava só, sem o Max pra me apoiar em cada passo que eu dava. Era tão difícil imaginar como eu poderia continuar.

Seus cabelos negros estavam sem a vida e o brilho que normalmente tinham e a pele, que costumava ser tão rosada mesmo nos dias frescos, estava cheia de maquiagem pra esconder a palidez. Seu peito não subia e descia com o movimento de sua respiração e eu não podia ouvir seus batimentos cardíacos, sempre tão acelerados e próximos a mim e que sempre pareciam fazer o ritmo dos meus, me rodeando e me dando sentido em continuar com o meu coração acompanhando-o. Seus braços fortes estavam rígidos demais, tal como as pernas, e essa era a diferença que eu via do sono pra morte. Rigidez era a resposta.

Suspirando, eu levantei os olhos dele, evitando chorar. O velório estava cheio de pessoas de preto, a maior parte de homens do exército e suas mães e esposas. Muitos homens que eu havia conhecido em noites escuras nos galpões do exército. Alguns tinham a audácia de sorrir debochadamente pra mim, como se agora eles fossem minhas primeiras opções de salvação. Não mesmo.

Nos lados mais próximos, estavam aqueles que mais gostavam de mim e que me olhavam com uma mistura de tristeza e pena. Eu não podia chamá-los de amigos, não estavam próximos o suficiente pra isso, mas se eu tivesse que abraçar alguém... Seria um desses.

Não era tão fácil caminhar quanto era antes. Parecia que cada passo que eu dava me distanciava mais do passado com ele. Cada vez mais distante, abandonando pedaços do meu coração pelo chão. Eu admirei as pessoas, nenhuma delas sentia nada parecido com o que eu sentia, mas ao mesmo tempo me olhavam com compaixão, como se soubessem a dor. Elas mal imaginavam o que era se sentir sozinha no mundo. Sozinha.

Caminhei até o caixão e parei à sua borda, encarando seu rosto angelical que havia sorrido enviesado pra mim tantas outras vezes. Agora seu sorriso era vazio e isso fazia com que o meu nem se encontrasse em minha face.

Perdido. Como uma grande parte de mim.

Fungando, eu me dirigi ao canto próximo a porta, onde havia um pouco d'água e era longe dos olhares de pena das pessoas. De acordo com o médico amigo do Max, eu deveria tomar muita água ou desidrataria de tanto que eu já havia chorado. Incrível que eu conseguisse me controlar no meio das pessoas, por mais que eu não me importasse com o que pensavam de mim. E eu sabia que alguns pensamentos naquela sala não chegavam a ser nem perto do que seria considerado puro.

- Foi uma perda lastimável, querida - Mais uma daquelas velhas enxeridas, que eu não lembrava o nome, entrou na sala do velório e veio me dar os pêsames.

Eu apenas concordei com a cabeça, mordendo o meu copo e bebericando um pouco da água apenas de desculpa para não ter que responder nada com a minha voz arranhada de tantos gritos de loucura que eu havia dado quando soube da morte dele.

Encostei-me à parede e minha vontade extrema era de escorregar para o chão, mas me impedi com o pouco de dignidade que ainda me restava - e ela era realmente pouca, principalmente ali, no meio de tantos homens que haviam passado a mão pelas minhas curvas e me tratado como uma qualquer que eu não era.

A minha água pareceu não me hidratar. Eu senti como se ela tivesse simplesmente passado direto aos meus olhos e se transformado em lágrimas grossas que escorreram deles junto com lembranças, boas e ruins, do meu Max.

Preciosa [DEGUSTAÇÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!