Capítulo 1

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POV Narrador.

— Não sei por que você insiste em dividir o apartamento com esse babaca. — Hande reclamou, retirando com nojo uma meia de Kerem que estava sobre a almofada do sofá.

— Essa sua implicância é puro tesão reprimido. Isso faz mal, sabia? — Gamze riu, se divertindo com a irritação da irmã.

Kerem e Hande eram como elementos químicos altamente instáveis. Colocá-los no mesmo ambiente era pedir por uma explosão a qualquer momento.

Friends? — Gamze sugeriu a série ao ver a irmã revirar os olhos, na tentativa de acalmá-la. Era o jeito perfeito de desviar a atenção da probabilidade de tapas voarem.

FRIENDS! — Funcionou.

Hande comemorou com pulinhos infantis, correndo até a estante para ligar a TV. Seu short curto e desfiado era quase todo coberto por uma camisa preta e larga. Quem visse Hande vestida assim, agindo como uma adolescente, jamais imaginaria que ela era uma jornalista de sucesso, prestes a ser promovida a editora-chefe da Revista Brightness.

— Mas que inferno é esse? — A morena se irritou quando ouviu barulhos vindos do quarto de Kerem se intensificarem. — Esse sádico não para nem por um minuto? Não sei como alguém consegue ir para a cama com um cara feito o Bürsin. — Bufou, aumentando o volume da TV. — E nem me olha com essa cara! — Ameaçou a Gamze, que levantou a sobrancelha, divertida.

— Eu não estou fazendo nada. — Gamze ergueu as mãos em sinal de inocência. — Só estou dizendo para tomar cuidado para não acabar mordendo a língua. — Piscou, provocando.

— Impossível. — Hande soltou uma risada sarcástica. — Nem se o rei da cocada aparecesse de vestido tubinho cantando Shimbalaiê.

— Você é ridícula. — As duas caíram na gargalhada.

— Tchau, meninas. — Uma loira acenou com suas unhas postiças. Na visão de Hande, era a típica "piranha dada". Seu cabelo desgrenhado e a roupa amassada denunciavam o que havia acabado de acontecer.

Gamze fez um discreto aceno, enquanto Hande revirava os olhos mais uma vez.

— Santo Deus! — Exasperou-se Hande, após a segunda mulher sair do quarto de Kerem naquela noite. — Isso aqui está virando um bordel!

— Boa noite pra você também, Erçel. — A voz grave de Kerem ecoou pela sala. Ele apareceu apenas com uma toalha azul enrolada na cintura, e uma mulher pendurada em seu braço. Aquela expressão que Hande tanto odiava — sobrancelha arqueada e sorriso sacana — estava estampada no rosto dele. Era o suficiente para fazer o sangue de Hande ferver, ou talvez... algo mais. Mas, como sempre, ela ignorava essa sensação. "É só repulsa", repetia para si mesma.

— Depois de te ver, não estou mais tão bem assim. — Ela rebateu, sustentando o olhar desafiador de Kerem. A tensão entre eles era palpável, como se o ar ao redor tivesse ficado mais denso.

— Sempre agradável. — Kerem ironizou.

— Sempre desnecessário. — Hande respondeu na mesma moeda.

— Desculpe, linda. — Kerem apertou a mulher em seu braço. — A mãe não deu educação para todos, ao que parece. — Lançou um olhar provocativo para Hande.

A mulher em seu braços riu, e Hande revirou os olhos pela milésima vez naquela noite.

— Mas me deu bom gosto. — Hande se levantou de repente, caminhando até Kerem, desafiadora.

— O que você quer dizer com isso? — Ele estreitou os olhos.

— Que eu nunca me deitaria com alguém tão repulsivo como você. — Hande encarou Kerem de perto, e seu olhar desceu rapidamente pelo corpo do homem de toalha. — Você merece mais do que isso. — Apontou para a mulher, antes de virar as costas para ele.

Kerem sentiu o sangue ferver de irritação. Aquilo não ficaria assim.

— Ei! — Hande protestou quando ele a puxou pelo braço.

O movimento fez com que ela girasse e colidisse contra o peito firme de Kerem. Os rostos estavam a centímetros de distância. Hande podia ver a fúria queimando nos olhos de Kerem, mas o que mais a desestabilizou foi o perfume dele que invadiu seus sentidos. Seus pulmões absorveram o cheiro familiar, e ela teve que lutar contra o impulso de fechar os olhos.

Você ainda vai implorar por isso, Erçel.

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