1. No balcão do bar

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A verdadeira promessa vem sempre carregada de uma dor insuportável e, por isso, pede e espera pelo impossível, a que se chama de milagre.

Só se promete fazer alguma coisa que seja impossível ou difícil demais. Essa é a beleza que há nas promessas, a coragem de um ato heróico, o mergulho no escuro, a entrega completa. Quem promete sabe que não há garantias. Nada, realmente nada, indica que aquele ato de fé possa realmente alcançar o resultado esperado. Ainda assim, prometemos o impossível e fazemos isso não por que queremos ser heróis, mas por que uma dor intensa devora nosso coração com dentes afiados.

Eu não fugia a regra. No dia em que presenciei o acidente de Sara, minha irmã gêmea, eu prometi a mim mesma que ela ficaria boa. Eu prometi algo impossível. A tetraplegia de Sara revelou ser irreversível. Ainda assim, por teimosia, esperança ou até loucura da minha parte, mesmo depois de transcorridos três anos, eu mantinha minha promessa, que ecoava repetidamente dentro do vazio infinito que me habitava.

Eu amava Sara. De certa forma, eu sempre existi junto à Sara, não me lembro de existir sem ela. Às vezes, era mesmo como se fôssemos uma só. De fato, a união e a cumplicidade que existe entre gêmeos é tão intensa e forte quanto pode ser devastadora. Eu não conseguia aceitar a tetraplegia de Sara. Era demais. E o fato de ter sido por minha culpa que ela permanecia estirada imóvel em sua cama só aumentava minha dor.

Por isso, repetir, diante de Deus, minha promessa para a cura de Sara, noite após noite, pode ter sido a maneira que encontrei de me torturar pelo que tinha feito. Afinal, uma culpa como a minha devia ser relembrada todo o tempo, apontada e recriminada, ciclicamente sem fim. E por mais que eu sofresse, e eu sofria demais, não era suficiente, nunca era suficiente. Eu tinha que pagar mais, talvez, até mesmo com a minha alma.

É claro que era a cada dia mais difícil acreditar naquilo que eu tinha prometido, eu duvidava mesmo que um milagre poderia acontecer e volta e meia minha raiva e minha descrença conseguiam escalar minha garganta e eu sentia uma vontade imensa de gritar. Sempre gritava no banheiro, com a porta trancada e com uma toalha na minha cara para abafar meu grito e esconder do mundo os demônios que me consumiam.

Eu já tinha rezado tanto a Deus, que tinham surgido dois círculos fundos marcando a madeira ao pé da minha cama. Só quem rezou tanto quanto eu pode entender o significado daquelas marcas. Dois buracos que provam que implorei, esperei, rezei e rezei, prometi, fiz todos os tipos de juras e, por mais que os buracos ficassem mais fundos dia após dia, dentro de mim surgia a certeza crescente de que não passavam de buracos no chão e nada mais. Não significam nada para Deus. Eram somente dois buracos no chão. Só. Por isso, eu tinha imensa raiva daqueles malditos que, como droga, volta e meia me atraíam. Viciada em esperar o milagre que não viria.

Naquela época eu estava cansada demais de esperar, estava exausta. Farta. Decidi que eu não queria mais aquela passividade morna e inebriante. E, naquela noite, eu prometi a mim mesma que buscaria ser quem um dia eu já tinha sido. Impossível, podia ser, mas assim eram as promessas e disso eu já sabia.

Coloquei um vestido preto e, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia bem. De alguma forma era até estranho porque lembro de ter me olhado no espelho e ter conseguido, por fugidios instantes, não ver o reflexo da minha irmã gêmea.

Eu sabia que Sara continuava em sua cama, imóvel, tetraplégica, com seus olhos opacos e sem aquele brilho alegre que eu tanto gostava. Eu sabia que ela não seria feliz novamente, talvez nem eu. Eu sabia que seu reflexo no espelho voltaria a aparecer para mim, feito assombração, assim como meu remorso continuaria a me perseguir como se fosse minha própria sombra. Ainda assim eu tinha prometido agir de forma diferente naquela noite e essa promessa eu cumpriria. Pelo menos ela só dependia de mim.

Pacto SecretoLivro 1 da Trilogia Pacto SecretoLeia esta história GRATUITAMENTE!