Capítulo VII

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Levantou de um jeito preguiçoso. Sua cama com certeza estava mais confortável para curtir o resto de sono, saiu do sofá meio sonâmbula em busca do seu edredom quentinho. Olhou para o celular e demorou um pouco para entender a mensagem: "Chego na sua porta em 15 minutos. Eu adoro o vestido, mas hoje é melhor você vestir algo confortável"

Ela havia se esquecido completamente que Leo viria busca-la para ir sabe-se lá onde. Não. Hoje não! Hoje é dia de dormir e não fazer mais nada. Respondeu dizendo que ficaria para a próxima, que ela não se sentia muito bem. Não demorou para chegar a resposta: "Isso que você está sentindo é preguiça. Acorda que eu prometo que não vai se arrepender. Não esquece de calçar um tênis".

Laura entendeu que ele insistiria, que driblar esse cara não é uma tarefa simples. Não sabia se estava com mais preguiça de sair de casa ou de começar uma discussão. Decidiu que discutir lhe custaria mais energia. Vestiu uma malha justa e um tênis de corrida há muito aposentado.

Quando saiu Leo já estava na porta. Montado na sua moto em uma regata branca, com uma mochila nas costas e perfeitamente ciente que ficava lindo com a luz do sol encostando na sua pele. Ele sorriu, entregou a mochila para ela carregar e mandou que segurasse firme. Laura seguraria, fazia questão. Porque não?! Que mal teria sentir os músculos dele assim de perto?! Ele me tirou da cama, tenho o direito. De toda forma ele não parecia se incomodar.

Ela não se deu ao trabalho de perguntar para onde iriam. Para quê?! Não importava. Devia ser para algum lugar no meio do nada aonde ninguém a escutaria gritar. E foi. Seguiram por muito tempo por uma auto estrada vazia, depois entraram um uma trilha parecida com a anterior, e enfim ele disse:

_ Daqui seguimos andando. – era o que ela temia!

_ Que diabos de mania é essa que você tem de se meter no meio do mato?!

_ Não reclama. Eu sei que você vai adorar.

_ Lógico! Adoro ser chicoteada por árvores enquanto caminho por um lugar sem ninguém por perto a quilômetros.

_ Qual é a parte de não reclama você não entendeu?! Anda, me dá essa mochila. Aqui tem água e filtro solar com repelente. Tem muitas frutas pelo caminho. Vamos sobreviver.

_ O quê?! Vamos fazer fogueirinha esfregando gravetos também?!

_ Não, prefiro o escuro.

Seguiram por uma trilha aberta. Muitas árvores pendurando frutos que ela nem sabia que existiam. Ele zombava dela a cada vez que falava da sua ignorância e a desafiava a provar todos eles. Gostava da maioria, mas fingia que não para provocar pequenas discussões bobas com Leonardo. De um jeito estranho, sentia-se feliz em discutir com ele, dessas alfinetadas mútuas que eles fingiam detestar.

Não parecia ter demorado quando chegaram ao pé do que parecia ser um morro. Era fácil vê-los na paisagem, mas sempre pareciam tão distantes... Agora ela via essa subida íngreme em um caminho que desaparecia em meio a vegetação. Ótimo. Tudo que ela queria para um domingo, subir um morro.

_ Passou dos limites querido. Eu não vou subir!

_ Então tá. Fica aí reclamando sozinha. Eu vou subir. Só toma cuidado com as cobras.

_ Como assim cobras?!

_ Cobras ué! Cobras! Aquelas que rastejam. Sabe qual é?

_ Tá de brincadeira!

_ Tô com cara de quem tá de brincadeira?! – não, ele não estava.

_ Ok Leonardo, eu vou subir. Mas eu juro por tudo que há de mais sagrado que é a última vez que você me pega num programa de índio desses. Qualquer convite que você tenha para me fazer já está de antemão recusado!

_ Quem disse que eu pretendia convidar uma chata reclamona para alguma coisa?!

_ Você, que não tira os olhos de mim. Pensa que eu não percebo?!

_ Eu sei que você percebe. Não estou escondendo.

_ Certo. Então já que estamos sendo sinceros, me responde uma coisa: porque você quer dar uns pegas na gordinha aqui ao invés de procurar uma sarada gostosa?! Parece fazer mais o seu tipo.

_ Você viu alguma sarada gostosa desde que chegou nessa cidade?

_ Quer dizer que eu estou no seu alvo por pura falta de opção?!

_ Você não sabe nada sobre minhas opções.

_ Sei que você é um grande babaca. Um machista de merda e babaca. Muitíssimo babaca.

_ Sou babaca porque estou a fim de você?

_ É babaca porque acha que seria uma grande honra para mim de ter. Fica aí todo gostosinho ostentando esse abdômen tanquinho como se eu fosse implorar para você me comer. Novidade para você: não vou dar! Vai tirando seu cavalinho da chuva porque você pode até ser uma delícia, mas eu não tenho tesão por homem otário.

_ Você mal me conhece e já perdi as contas de quantas vezes me xingou.

_ Tá muito longe da gente chegar no topo?! Porque acho que consigo xingar mais algumas vezes.

_ Eu não vou gastar minhas forças discutindo com você Laura Biscoito! Se quiser pode ir falando sozinha, porque eu vou te ignorar.

_ Mais uma vez provando que é o grande babaca que eu disse que você é.

Ela estava realmente com raiva, ou orgulho ferido, ou qualquer outra sensação que fazia seu sangue ferver. Talvez todas as sensações de uma vez só. Era provável. Disse para si mesma que aqueles músculos e aquela bunda perfeita não valiam sua sanidade. Nem devia ter se metido com esse cara para começo de conversa. Ia permanecer calada e aguentar aquela companhia até a hora de ir para casa. Depois não se deixaria mais seduzir. Apostaria todas as suas fichas no médico gato, fofo e que sabia cantar.

_ Estamos quase chegando. É logo depois daquela árvore torta ali.

A vista era incrível. Estava cansada, muito ofegante, mas não importava. Parecia que estava no topo do mundo! Atrás de si um paredão de pedra, e à frente um infinito verde. Árvores a perder de vista acabavam em um céu azul. Não existia mais nada no mundo além daquele lugar. Só se ouvia o vento que bagunçava de leve o cabelo, nada mais.

Sentiu Leonardo aproxima-se dela por trás. Ficou perto o suficiente para arrepiá-la, mas sem tocá-la. Não ousava se virar.

_ Não quero te comer por falta de opção. Eu desejo você porque te acho gostosa. Quero você porque é teimosa, geniosa, inteligente e tem uma boca suja do caralho. Porque é linda. Isso me dá um tesão que você nem imagina. Mas não vou te tocar até que você me peça por isso.

E ela queria pedir. Mas ao mesmo tempo não queria. A mistura do arrepio pelo corpo com aquele cenário incrível a deixava sem palavras e sem ação. Ele continuou ali na mesma posição por minutos, talvez esperando que ela se manifestasse. Laura só conseguiu esboçar alguma reação depois que as pernas pararam de tremer e o coração passou a bater em ritmo menos acelerado. Ninguém sabe quanto tempo isso levou, mas pareceu ser muito tempo. Um tempo maravilhoso, diga-se de passagem.

Sentia-se viva! A raiva de minutos atrás havia se transformado em desejo. Um monte de desejo. Quando recobrou os sentidos e o controle de si, resolveu entrar no jogo. Virou-se para ele ainda sem tocá-lo, mas assim era mais fácil sentir o calor e a eletricidade que saia dos seus olhos.

_ Eu não vou te pedir nada.

_ Então eu não encosto em você.

Continuaram a se olhar sem que existisse mais ninguém a quilômetros. De fato não existia, mas se existisse certamente poderia ver faísca saindo daqueles dois. E como um imã, se atracaram ao mesmo tempo.

Só conseguia se perguntar se mais alguém no mundo além dela teria tido um orgasmo olhando para esse infinito verde...

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