O Cerne do Tempo

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Nunca mais saí de minha cela. Não sei como é estar lá fora, e de verdade, não quero estar lá fora, mesmo sendo esse um lugar comum a mim e aos ratos que me visitam, sinto que existe mais possibilidade de alcançar o êxito da missão, estar livre não é mais seguro. 

Pessoas soltas se distraem sem perceberem, ocupam-se com desejos e trivialidades, assumem responsabilidades e obrigações, e chegam ao final de seu tempo próprio sem alcançar – e muitas vezes sem lembrar – o que um dia almejaram.

Hoje os guardas atrasaram a troca, diferente dos últimos três anos, o mais velho entre eles atrasou , e nessa noite, dei-me conta de que esperei por ele. 

Esperei que assumisse o seu posto e que, com a sua rudez costumeira, passasse de cela em cela desferindo golpes de cassetete contra as grades, falando os números um a um.

Números que mudavam à cada ronda feita nos corredores. Golpeava o aço das grades, uma a uma, e quatro batidas antes da minha cela, parando um instante e para prosseguir um pouco depois, caminhando de uma forma diferente, com menos raiva, e sem dizer os números.

Nesse intervalo que antecede sua chegada à grade de minha cela, percebi que passa por duas celas nas quais não bate, sempre a passos lentos. Depois para por um intervalo equivalente a quatro batimentos de meu coração.

Os batimentos de meu coração... Depois do isolamento total nas outras duas prisões aprendi enfim a contar o tempo.

Às vezes ouço o som de um bipe. É possível que seja um ponto eletrônico, ou um portão separando o corredor que liga um pavilhão ao outro. A minha cela fica nesse corredor. 

Após o bipe, os passos do velho guarda soam mais intensos, e mais espaçados. Entre um pisar e o outro, lembro-me dos meus primeiros meses, quando sentia uma angústia insuportável ao ouvi-lo se aproximar. Passado um tempo, algumas coisas mudaram, descobri que a angústia não era causada por medo do guarda, mas por uma memória que esqueci, algo doloroso que preciso relembrar.

Inclusive agora sei exatamente quem é esse guarda.

Uma batida após a outra, o aço vibra com o impacto do titânio revestido com borracha. Três vezes. Então ele vira à sua direita para chegar ao corredor de minha cela. Passa por uma estátua de bronze. O som do titânio batendo no bronze é diferente. Ele não golpeia como faz nas grades, dá um leve toque, o ritmo de seus passos altera um pouco, como se parasse para golpear um ponto específico da estátua, creio que talvez seja algum busto de bronze. O som propaga-se harmonioso, perdendo-se no corredor de minha cela, a única do corredor. É um corredor que liga-se á outros três pavilhões, de um lado o eco demora dois batimentos cardíacos e meio, seguido do outro que demora quatro batidas cardíacas para ressoar, misturando-se ao som da última batida, mais forte e carregada de ódio.

Minha cela é a única onde ele bate duas vezes, e sincronicamente a segunda batida ecoa pelo corredor e pelos três pavilhões, misturando-se ao som vindo de um outro corredor, onde outro guarda, também golpeia as grades por onde passa, com o cabo de seu cassetete. São sons diferentes. A segunda pancada desferida contra a grade de minha cela, produz os três ecos de sempre, o primeiro, dois batimentos cardíacos e meio após a batida, seguido por um que demora exatamente quatro batidas de meu coração, e o terceiro, que reverbera abafado pelo som da batida do outro guarda em uma porta de ferro, um batimento e meio após o segundo eco.

Hoje, aconteceu diferente, pude ouvir o terceiro eco, na verdade demorou quase dois batimentos após o segundo, e percebendo essa diferença, percebi o óbvio. A morte já nos visitou, embora continuemos insistindo em respirar.

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