11 - Interação Personagem e Cenário

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 "Estou sentado num vagão do metrô lendo um livro e não há ninguém à minha volta, o vagão está completamente vazio. O trem para na estação e alguém entra no vagão, tenho a impressão de que a pessoa carrega uma mochila com um cano pendurado. Abaixo a cabeça e volto a ler, alguns segundos depois, aquela pessoa está na minha frente com uma catana ameaçando cortar minha cabeça." – Tenso, não?"

O que faltou nesta descrição? No sentido literário podemos dizer que faltou tudo. Já falamos de diálogo e como este tem que dar vida à personalidade do personagem, criticamos o uso de palavras vagas nas descrições, e da importância de determinar os personagens principais e secundários.

Supondo que já tenha respondido às perguntas gerais sobre o texto acima e que são intrínsecas ao todo do livro.

· Do que trata a história? De pessoas que são misteriosamente mortas e continuam existindo num universo paralelo.

· De que gênero? Suspense e terror.

· Quem é o narrador? Uma das vítimas que procurará a redenção/explicação.

· Quem são os personagens? Algozes e Libertadores.

Várias perguntas relativas a esta cena inicial não foram respondidas, nenhuma delas relativa ao suspense ou a minha reação. São perguntas que poderíamos chamar de 'ambientais'.

· Quais cores vou usar no meu livro? Posso escolher cores noturnas, tanto para os personagens quanto para o ambiente.

· Devo contrastar com as cores do mundo dos vivos? Então vou usar tons pastéis para sugerir que o mundo dos vivos é mais sem graça do que o mundo dos mortos.

· O personagem principal/narrador está sozinho e tem consciência de sua solidão? Posso estabelecer uma relação entre o trem vazio e o vazio de opções do meu personagem – ele não mais lerá um livro, estará ao celular brincando com um joguinho sem graça.

· Por que o vagão está vazio? Vou narrar uma interferência anterior causadora ou localizar a cena numa hora perdida de um feriado?

· Etc.

Temos ciência do plano geral, mas o plano particular, cena por cena é gerado no ato de escrever. Por isso quanto mais elaborada for a ambientação ou a descrição do personagem, inclusive seus medos e neuras, independente de utilizarmos ou não todos os elementos na hora de escrever, mais próximos desta catarse o escritor estará.

"Acostumado a pegar o metrô na hora do rush, ao entrar no vagão vazio senti-me como ele, sem nada por dentro. Acuado pela ausência das pessoas para quem aqueles bancos frios foram destinados. Ao sair do escritório nesta segunda feira de inverno, ponte de feriado, por volta das 11 da noite, não achei prudente andar com meu celular novo à mostra. A opressão do isolamento fez com que fosse absolutamente necessário que tirasse meu companheiro da mochila, e me desvencilhar da sensação inesperada num ambiente que diariamente eu via lotado de outros como eu. Comecei a jogar "Samurai Battle" e ouvir minha banda preferida. Quando o trem parou na próxima estação levantei a cabeça para ver se o mundo - que caberia naquele vagão - continuava deserto, ninguém na plataforma, ninguém nas escadas rolantes, nenhum segurança, soou o alarme da partida, abaixei o rosto e voltei ao meu terreno imaginário onde derrotava guerreiros voadores. Não deu certo. Perdi, na pequena tela apareceu "fim de jogo". Respirei fundo e levantei a cabeça. Parado, em frente à última porta, vi um rapaz carregando uma mochila. "Será que me distrai e não vi chegar a próxima estação? Nem percebi que o trem estacionou para carregar um acompanhante?" pensei, em nada aliviado por não estar mais sozinho. Na verdade, o desconforto era ainda maior. O sujeito estava de costas, apoiado no ferro lateral da porta, com uma mochila negra como as suas roupas, bota, jaqueta com capuz, calça, atravessado no suporte externo da mochila um cano longo. Provavelmente um estudante de desenho, arquitetura e seus trabalhos, embora o cano fosse fino e inadequado para carregar folhas enroladas. Dei de ombros e voltei minha atenção para a tela do celular. Foram dois segundos ou menos, dois toques no celular, se tanto, e o sujeito estava na minha frente. Mascara negra, levantando a catana afiada para cortar minha cabeça."

Por onde começar a gestação: pelo cenário, ou personagens?

Pode ser que alguém discorde, mas como ser humano começaria pelos personagens, meus iguais.

As perguntas que responderei não servirão somente para um parágrafo ou capítulo, elas nortearão todo o processo assim como aquelas gerais das quais já sei a resposta. Não preciso necessariamente incluir todos os cenários na história ou todas as características no personagem, mas a combinação dos dois sugere um ambiente para além do espaço físico. Um personagem não é uma marionete que o autor domina. O cérebro trabalha basicamente conectando informações das mais diversas, imaginamos uma situação, colocamos esta situação dentro de um contexto e realizamos interações com experiências vividas ou conhecidas que geram uma emoção ou catarse num processo de causa e efeito.

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