5 - O Diálogo e Seus Dramas (ou seriam Comédias?)

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Não sou bom com diálogos//Não consigo escrever sem diálogos. Que fazer?

Alguns dos aspirantes a escritores que tenho lido se limitam a descrever um ambiente/personagem na sua forma física e criar diálogos de ação, onde os personagens decidem o que vão fazer ou deixar de fazer para solucionar um problema.

Nem uma coisa nem outra. Cenários não são contextos ou objetivos se há somente descrição de espaços, cores e formas. Diálogos não são conversas se não há a personalidade dos protagonistas funcionando por trás deles. Sobre personagens discorreremos adiante.

O diálogo é a transformação das conversas da simbologia oral para a simbologia escrita, ou seja, as duas simbologias são diferentes. Nossa voz tem entonação, vem acompanhada de gestos e expressões faciais - linguagem corporal. São duas linguagem que representamos nos diálogos: a corporal e a oral. A escolha das palavras que possam nos remeter não só ao que foi dito, como também ao como foi dito é muito importante. Portanto, o diálogo não é a simples reprodução do falar. Dependendo do contexto muda a escrita:

- O José está?

- O Zé tá ai?

- Você sabe onde está o José?

- Sabe do Zé?

Discurso Direto e Indireto

Temos duas maneiras de reproduzir um diálogo. No discurso direto, fazemos como acima, colocamos a barra, ou outro símbolo que indique que há uma conversa onde, antes ou depois, acrescentamos uma indicação de quem está falando e o propósito da fala. Existem inúmeros verbos que utilizamos quando queremos demonstrar o propósito da fala: dizer, falar, comentar, perguntar, responder, contar etc. Você pode utilizar verbos não tão comuns para explicar este propósito: rir, chorar, decidir etc. Em ambos os casos, devemos usar parcimônia, para não cansar o leitor com muita repetição, ou muita "originalidade".

Observe o exemplo:

- Quando chega seu pai? – perguntou João.

- Amanhã de manhã. – respondeu Mathias.

- Depois de amanhã. – disse Pedro.

- Então vamos visitar tia Maria amanhã, está decidido – disse Cátia.

- Vamos sair cedo, às oito. – disse João.

- Já estou lá! – disse Mathias alegre.

- Quando chega seu pai? –João estava cabisbaixo, parecia deprimido.

- Amanhã de manhã. – respondeu Mathias no mesmo tom de João.

- Depois de amanhã. –Pedro havia confirmado a chegada do voo minutos antes.

- Então vamos visitar tia Maria amanhã, está decido. – propôs Cátia, já sabendo que a sugestão iria agradar a todos.

A proposta da prima provocou uma reviravolta no humor de João:

- Vamos sair cedo: às oito. – sugeriu com um sorriso.

Mathias, alegre com a possibilidade de passar mais tempo com os primos, disse:

- Já estou lá!


No discurso indireto reproduzimos em texto o que seriam as falas. No exemplo acima poderíamos escrever a última frase em discurso indireto desta forma:

"Mathias, alegre com a possibilidade de passar mais tempo com os primos disse que já estava lá."

É preciso tomar muito cuidado com o discurso indireto, existe uma série de regras de concordância para passar a sentença de direta para indireta. Um bom treino, alguns exercícios e uma tabela, podem ajudar. O discurso indireto nos permite misturar pensamentos e falas num único parágrafo, definindo a situação psicológica do personagem num determinado momento.

No ínício de Dom Casmurro de Machado de Assis, que é para mim um dos maiores escritores de todos os tempo, temos um pequeno diálogo entre o protagonista e um passageiro.

"Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

- Continue, disse eu acordando.

- Já acabei, murmurou ele.

- São muito bonitos." – Dom Casmurro – Machado de Assis

Os que escrevem poemas - e todos escrevemos, num momento ou outro de nossas vidas: para um amor, para nós mesmos, para as estrelas – aborrecem-se como o rapaz pela atitude de Bento. Ou seja, o diálogo gerou a percepção do caráter do protagonista: taciturno, ensimesmado, vale a pena lembrar que o livro é uma confissão em primeira pessoa.

Qual as funções do diálogo?

1ª – Caráter do personagem – o escritor descreve o personagem, pode fazê-lo através de um longo parágrafo e então podemos imaginá-lo vil ou heroico, no entanto, quando este personagem interage temos exemplos do que descrevemos e a ideia torna-se mais forte e precisa.

2ª – Dramatizar – as relações entre os personagens ganham tensão e consistência.

3ª – Contar em vez de descrever – esta é uma boa ferramenta para revelar um passado, gerar expectativas, inserir um cenário.

O que não se faz com um diálogo?

Informativo – o diálogo não é pedagógico, a escrita reproduz o universo da fala, não há nada mais artificial do que um diálogo longo e descritivo. Talvez se o personagem estiver no sofá de um analista, ou um criminoso descrevendo um crime ou um arrependimento. Por exemplo, colocar um personagem descrevendo minuciosamente o funcionamento de uma máquina por linhas a fio beira o surreal.

Uniformidade – Manter o mesmo tom para todos os personagens. Para reforçar o estado/caráter de um personagem, escolhemos o som das palavras, a intensidade e o comprimento das frases para o raivoso, o irônico, o romântico etc. Ao ler um livro preste atenção como os bons escritores modificam as palavras de acordo com os personagens.

Cópia – procure não copiar a realidade, se por um lado o diálogo é a boca levada aos olhos, por outro lado ele não exime o escritor da obrigação de ser criativo e mostrar ao leitor o que está nas entrelinhas.

Fora de época - Não dá para escrever como Machado de Assis, ele viveu noutra época. Traduzindo o diálogo do texto acima para os dias de hoje no metrô de São Paulo:

"- Manda ai, vai, disse eu acordando.

- Já era, murmurou ele.

- Dá hora!"

A melhor forma de melhorar nossos diálogos é ouvindo. Observe a conversa das pessoas, seus trejeitos e pontos de vista. Quem disse que ouvir o papo furado da sua vizinha não tem proveito algum?

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