4 - Fluidez e Ação Dramática

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Como fazer a sua história fluir bem? Escrever aquele livro que as pessoas leem ansiosas para chegar ao fim e quando acabam ficam com gosto de quero mais.

Imagine-se com um pouco de sede, não muita, normal. Pegue um copo e coloque água dentro. Beba. Pronto, matou sua sede.

Imagine-se com sede numa situação extrema:

Não está faltando água, mas a torneira é um conta gotas, pinga gotinha por gotinha.

A torneira jorra água, com tanta força que você não consegue nem encher o copo nem por a boca na torneira pois poderá machucá-la.

A torneira é você, a água seu livro, o sedento: o leitor. Você deverá dosar a sua história para que ela não se demore demais ou chegue antes do previsto a uma conclusão, parcial ou final.

Eu gosto de Bernard Cornwell, acho esta modalidade de ficção baseada em fatos reais e históricos fascinante, gosto de histórias medievais e gosto de História. Não consegui ler um dos volumes da saga da Canção da Espada, acho que foi "Os Senhores do Norte", até o fim. O problema foi o copo às vezes insuficiente para o fluxo ou nunca cheio pelo conta-gotas. Este volume específico não me emocionou, pois a história não fluía como deveria. O mesmo posso dizer do quarto volume das "As Crônicas de Gelo e Fogo" de George R.R. Martin, "A Fúria dos Reis", a história parece escrita para o conta-gotas.

Não é o caso dos autores citados, mas alguns autores estão ligados aos contratos com suas editoras e têm certa quantidade de páginas para escrever em um determinado tempo. Às vezes o escritor não está numa época muito inspirada. É muita história para poucas páginas ou muitas páginas para pouca história, isso acontece muito com escritores de best-sellers nos EUA e RU.

Ação Dramática

A melhor torneira para saciar o leitor é a ação dramática. Os elementos básicos do drama estão arraigados em nossa cultura. Fazem parte dela há pelo menos 29 séculos. Pode-se argumentar que é uma fórmula pronta, assim como pode-se dizer que esta fórmula é o filtro que torna a água potável e sem resíduos.

Estes são fragmentos de textos de Arquíloco séc. VII ac. Perceba como soam familiares estas passagens nesta tradução atualizada:

"Não gosto do grande general de passos largos, orgulhoso de seus cachos, a barba bem feita, prefiro um baixo, com as pernas tortas, mas o andar seguro e carregado de coragem."

"Algum 'saio' (tribo dos saios) se orgulha do escudo; sem querer, abandonei a arma num arbusto. Salvei minha vida, que me importa o escudo? Perca-se; conseguirei outro igual."

"Nem glória nem respeito ganha um morto: a graça dos vivos, vivos perseguimos. Ao morto sempre resta o que é ruim." Tradução de Luiz Dolhnikoff.

Quem nunca leu Homero é bom fazê-lo, lá encontraremos a base de tudo que inconscientemente apreciamos num texto dramático.

Equilíbrio da Ação Dramática

Existem muitas escolas, muitos livros e métodos. Diversas nomenclaturas para o mesmo esquema. Este é um livro básico e como tal propõe-se não mais do que dar uma pincelada geral no tema. Nos próximos capítulos voltaremos a discorrer sobre alguns destes elementos e, na bibliografia, você encontrará vários livros úteis para entender melhor o processo.

São cinco os elementos/linhas que são intercalados na narrativa:

O suspense – ao não definir muito bem os resultados da ação, ao deixar no ar uma sentença ou uma adaga, cria-se um dos mais poderosos elementos para cativar/emocionar o leitor: o "E agora o que vai acontecer?"

O suspense precisa ser bem dosado. Em novelas policiais ele é a linha mestra. Fora este gênero específico, elementos de suspense se resolvem a medida da ação e outros são inseridos. A linha do suspense é costurada com as outras linhas.

O "flash-back" – em respostas aos porquês que vão aparecendo na trama, alinhavados pelos suspenses, temos as motivações/acontecimentos do passado que nos fizeram chegar neste ponto. Podemos inserir o "flash back" num capítulo, numa história paralela ou num pensamento. Nem sempre se menciona como um fato passado ou como recordação, pode ser uma revelação num diálogo, ou a sutileza de duas ou três palavras.

A reviravolta - é tanto uma mudança de rumo na história quanto um elemento inédito e que coloca a trama em xeque. Uma descoberta que gera expectativa ou desconforto. Podemos inverter um ponto de vista, mudar o protagonista da ação por um ou dois capítulos. Criar um elemento que faça o leitor se agarrar ao que foi contado previamente para não perder o fio da história.

Pode haver uma única reviravolta ou várias pequenas, antes da conclusiva, este caso este é um elemento forte e precisa ser muito bem dosado, dependendo do tamanho da história, quanto mais volume, mais micro reviravoltas podem ser inseridas.

O Descansar – Inserimos elementos de humor, se a ação é dramática, fazemos alguma observação fora da história, descrevemos mais demoradamente um cenário importante. Todos esses elementos servem para que o subconsciente do leitor trabalhe. Como dito no capítulo anterior, evite a fortuitidade, ou o leitor vai achar que é um só um intervalo e pular as páginas. O objetivo do descanso é permitir que o leitor viva a história. O melhor descanso é aquele que segue um elemento forte como o suspense ou reviravolta, até mesmo um "flash back" com uma revelação intensa.

A Repetição – O leitor se familiariza com o ambiente da história quando ele sabe como localizar os elementos dentro dela, sejam eles relativos à personalidade de um personagem, geográficos, resultantes de ação passada, descritivos etc. Esta familiaridade se dá pela repetição de nomes, comportamentos, temas, até que o leitor saiba exatamente ao que o escritor está se referindo. A constante introdução de novidades, sem que os elementos já apresentados sejam reforçados cria uma sensação de incapacidade cognitiva e consequentemente desinteresse.

Todos esses elementos bem dosados enchem um copo d'água e matam a sede

do leitor

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