3 - Coerência, Empatia, Discurso

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Parabéns, você escreveu o início de seu texto e ele te faz muito bem, pois acredita que conseguiu passar sua ideia para o papel. Agora, você quer compartilhá-lo. Procura um amigo disposto a ler. Inesperadamente ele faz perguntas sobre alguns trechos que ele não entende muito bem e que, pelo menos para você, estavam claros como água.

Não se decepcione. Agradeça a seu amigo a sinceridade das observações, elas são muito úteis.

Embora escrever seja uma das mais solitárias atividades humanas, ela tem a sua via de retorno: ler.

Imagine sua história como uma estrada. Não necessariamente você tem que saber o início, o meio, o fim, ponha-se a construí-la no ponto em que sua inspiração pedir. Teve uma boa ideia, escreve-a, depois faça seu planejamento e a encaixe dentro do percurso, preenchendo, se necessário, o antes e o depois.

O livro é um caminho que leva o leitor pela imaginação do autor: não pode ser muito tortuoso, cheio de pedras, levar a lugar nenhum, ser muito cansativo ou mal sinalizado.

Coerência

O que você pretende contar nesta parte da sua história? Está claro o que você quis dizer? Ela se encaixa no contexto do livro, ou seja, tem as mesmas cores dramáticas? A poesia tem uma linguagem mais hermética, cheia de simbolismos. A prosa por seu lado é menos simbólica e mais direta no seu discurso. O que você quer escrever – prosa ou poesia? Se for prosa, seja preciso na hora de passar suas ideias para o papel.

"Trate-me por Ishmael. Há alguns anos não importa quantos ao certo, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma;

Início de Moby Dick – Melville

Observe que o autor descreveu com perfeição seu personagem nas primeiras linhas do livro: disse o nome, o nível social, as ambições, as características emocionais e o ambiente que o circunda. Com poucas e bem escolhidas palavras ele não deixou dúvidas sobre qual seria o caminho da história.

Um caminho não prescinde de atalhos. Os atalhos dão colorido à história, às vezes levam a uma situação ou contexto paralelo. Enriquecem a imaginação com detalhes. Só não se esqueça dos objetivos.

'No dedo médio da destra, havia um anel feito em forma de espiral, ao qual estavam engastados um rubi perfeito, um diamante pontudo e uma esmeralda de valor inestimável. Pois Hans Carvel, grande lapidário do rei de Melinda, calculava o seu preço em sessenta e nove milhões e oitocentos e noventa e quatro mil e dezoito carneiros com toda a sua lã; a mesma avaliação foi feita pelo Fourques de Ausburgo" – Gargantua e Pantagruel – Rabelais – século XVI.

Esta descrição de um anel fecha o capítulo que descreve as vestimentas do gigante Gargantua, o exagero é próprio do contexto do livro, cujo objetivo é descrever com ironia os costumes dos ricos e poderosos da época.

Empatia:

Não existe uma boa história em que os personagens principais e secundários não desempenhem seus papéis, podem trocar de lugar num determinado ponto, os secundários por capricho da história tomam uma posição de destaque. É difícil encontrar a empatia do leito sem esta conexão. O leitor se vê nos personagens e precisa deles para se guiar pela história. O herói, o corajoso, o sofredor, o lutador, o engraçado e assim...

"K. mal dava atenção a esse discurso; não considerava muito elevado o direito de dispor sobre suas coisas, direito que ele talvez ainda possuísse, e parecia-lhe importante adquirir clareza acerca de sua situação; mas na presença daquelas pessoas ele nem sequer foi capaz de refletir, pois a barriga do segundo vigia – só podiam ser vigias – sempre voltava a bater nele de uma maneira que só poderia ser caracterizada como amistosa: porém quando ele levantou os olhos, vislumbrou um rosto seco e ossudo, ..." – O Processo – F. Kafka

K. é incapaz de analisar o mundo à sua volta sem voltar-se para seu próprio umbigo, mas para o leitor ele se torna familiar, o autor justifica as ações do seu personagem e o veste com realidade, K. é um personagem tridimensional.

O leitor precisa ser envolvido pelo cenário ao ponto de sentir o que os personagens sentem, descrever um cenário não é simplesmente indicar onde ficam as janelas e as portas ou qual a cor das paredes. Significa escolher elementos que representarão o estado de espírito do livro, símbolos que trarão memórias ao leitor ou serão compreensíveis, mesmo que subjetivamente.

"Parecia-me que o cortejo ia um pouco mais depressa. Em volta de mim, era sempre a mesma paisagem luminosa, inundada de sol. O brilho do céu era insustentável. Em dado momento, passamos por um troço de estrada que havia sido arranjado há pouco. O sol derretia o alcatrão. Os pés enterravam-se, deixando aberta a carne luzidia do alcatrão. Por cima do carro, o chapéu do cocheiro, de couro escuro, parecia ter sido moldado na mesma lama negra.

Sentia-me um pouco perdido entre o céu azul e branco e a monotonia destas cores, negro pegajoso do alcatrão aberto, negro baço dos fatos, negro lacado do carro.Tudo isto, o sol, o cheiro de borracha e de óleo do automóvel, o do verniz e o do incenso, o cansaço de uma noite de insônia, me perturbava o olhar e as ideias." O Estrangeiro - Camus

Estes dois romances, O Estrangeiro e O Processo, têm uma ideia comum: um homem é levado pelo Estado contra a sua vontade para uma situação completamente insólita e opressora.

Discurso:

Há escritores que são mais afeitos às descrições, outros ao diálogo. Muitos se juntam para produzir um texto, não é incomum em filmes você encontrar o nome de dois ou mais roteiristas. Há até os especialistas em diálogo. Eu gosto do diálogo, prefiro o diálogo às longas descrições. Mas descrever determina o ritmo da história e sinaliza o caminho que ela segue.

Quem escreve? Há um narrador, ou a narração é feita em primeira pessoa. Vai descrever a história em terceira pessoa e fazê-la de um ponto de vista impessoal. Em terceira pessoa com vários pontos de vista. Em forma de carta, ou lembranças do passado. Discurso direto ou indireto. Há várias possibilidades, a escolha da melhor forma depende do contexto da ideia. No texto de Kafka, citado acima, a narração em primeira pessoa é fundamental para que o leitor se sinta como o protagonista: alheio à razão que o está levando para a cadeia, embora essa razão apareça nas entrelinhas, ele sabe o porquê, mas finge para si mesmo não saber.

O que é importante e necessário está na história?

Diálogos ou descrições longas e desnecessárias fazem com que o leitor perca o interesse pela trama. Ambos têm que ter um propósito, seja ele direto ou indireto. Relacionado com o desenrolar da trama ou com alguma característica do cenário ou personagem.

"Dublin

Deasy – Guarde minhas palavras senhor Dédalus. A Inglaterra está nas mãos dos Judeus...

Stephen – Mercador é quem compra barato e vende caro, seja judeu ou cristão, não é?

Deasy – Eles pecaram contra a luz. E o senhor pode ver a escuridão em seus olhos. E é por isso que eles são errantes sobre a terra até os dias de hoje.

Nos degraus da bolsa de Paris homens auribrunidos leiloando cotações... Vã paciência de empilhar e entesourar. O tempo seguramente dispersaria tudo. Tesouro acumulado à margem do caminho: pilhado e pisoteado. Seus olhos sabiam dos anos vagabundos e, pacientes, sabiam das desonras da carne.

Stephen – E quem não pecou?" Ulisses – James Joyce.

Neste trecho temos um diálogo entre duas pessoas de opiniões diferentes e uma análise do cenário da época em que o livro foi escrito. Não é aleatório, desproporcional ou inadequado à proposta do autor. Para quem ainda não conhece: Ulisses tem uma trama muito simples, embora baseada na Odisséia de Homero, um homem sai de casa de manhã, cumpre as tarefas do dia e volta à noite, Leopold Bloom e seu amigo Stephen Dedalus, os dois personagens que trocam a posição de protagonista no meio do livro.


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