Os Três Fulcros do Ato Criativo

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                                                          Marcelo Rayel

                                              Os Três Fulcros do Ato Criativo

                                                                Santos

                                                                  2013

© 2013 Marcelo Rayel Correggiari

 Capa e diagramação: Marcelo Rayel

 Revisão: Marcelo Rayel

 Este ensaio teve sua primeira edição simplificada publicada na revista literária Mirante, março de 2013.

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Muito já se escreveu sobre o processo de se criar algo. E o tema, além de instigante e/ou apaixonante, vem se mostrando, ao longo do tempo, um assunto inesgotável. Principalmente porque não se conseguiu, até o presente momento, um modelo único de criação o qual poderíamos, a qualquer momento, lançar mão.

A criação possui caminhos que quanto mais tentamos catalogar, menos os conhecemos. Não há um padrão estabelecido pelo conhecimento acadêmico nem tampouco por um viés empírico. A criação respeita a diversidade de pensamento e é harmonicamente coerente à multiplicidade encontrada entre as pessoas.

Os fulcros presentes e descritos nesse pequeno ensaio ocorrem unicamente da observação do próprio processo criativo em contraste com os elementos encontrados nos trabalhos de outros artistas e criadores. Definitivamente não se trata, aqui, de fundar uma petição de princípio que soaria demasiadamente pretenciosa, posto que, como já observado acima, a variabilidade impede um padrão específico para o ato de criar. Não há, em momento algum, deste ponto em diante, a menor intenção de explicar ou enquadrar um assunto já designado como inesgotável.

De todas as expressões sobre a mecânica da criação, a mais coerente que pude encontrar reside na Filosofia da Composição, um pequeno ensaio/tratado do escrito norte-americano Edgar Allan Poe (Boston, 19 de Janeiro de 1809 - Baltimore, 7 de Outubro de 1849), onde ele explica as escolhas feitas para uma de suas obras-primas (talvez a maior) – o poema The Raven (O Corvo), de 1845.

Em A Filosofia da Composição, encontramos o primeiro esboço daquilo que serviria de base para o que aqui se discute sobre os três fulcros do ato criativo. Poe, primeiramente, se concentra na questão do efeito sobre o leitor e retira do autor certo véu sagrado daquilo que ele chamava de sutil frenesi, um surto que se apodera daquele que dá vasão à força invisível e sobrenatural da criação:

“(...) Muitas vezes pensei quão interessante poderia ter sido escrita uma revista por um autor que quisesse, isto é, que pudesse pormenorizar, passo a passo, os processos pelos quais qualquer uma de suas composições atingia seu ponto de acabamento. Seria, para mim, impossível explicar por que ainda não foi oferecido ao público um trabalho semelhante; mas talvez a vaidade dos autores seja a causa mais poderosa para justificarmos essa lacuna literária. Muitos escritores, especialmente os poetas, preferem ter por entendido que compõe por uma espécie de sutil frenesi ou de intuição estática e, positivamente, estremeceriam ante de deixar o público dar uma olhadela por trás dos bastidores, para as rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros propósitos só alcançados no último instante, para os inúmeros relances de ideias que não chegam à maturidade da visão completa, para as imaginações plenamente amadurecidas e repelidas em desespero como inaproveitáveis, para as cautelosas seleções e rejeições, as dolorosas emendas e interpolações; em suma, os rolamentos e as rodas, os artifícios para a troca de decoração, as escadas e os alçapões, as penas de galo, as cores, os disfarces e todos os enfeites que em noventa e nove por cento dos casos são o peculiar do histrião literário. (...)”

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