Capítulo Dois

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Chegamos na fazenda amanhecer em um final de tarde. Um lindo final de tarde devo ressaltar. Uma maravilhosa paisagem digna de um quadro ,com o campo verde esmeralda extenso até tocar o horizonte pintado pelo por do sol em tons damasco. E era o plano de fundo perfeito para aquele reencontro de vinte anos, se não fosse o detalhe da fazenda estar completamente deserta.

O silencio do lugar, que agora começava a escurecer, dava um ar assustador ao ambiente. Alguns grilos e sapos se preparavam para a serenata noturna, mas fora aquela orquestra desajustada e selvagem, não havia outra alma sequer. A casa que ficava apenas alguns metros da entrada, estava com sua pintura desgastada, as madeiras tortas pelo tempo e as janelas cobertas por tabuas pregadas com desalinho.

- Tem certeza que é aqui? - Perguntei um pouco em dúvida, mau percebendo que mantinha a voz baixa.

- Claro que sim. – Respondeu mamãe. Ela olhava a casa que crescera com um semblante de choque. – Só está um pouco diferente

Com um impulso Mamãe saiu do carro me deixando sozinha, e caminhou em passos lentos na direção do que outrora fora uma casa de campo, mas que agora carregava todos os traços do abandono.

Provavelmente compartilhávamos as mesmas duvidas e medos ao olhar aquele que seria nosso último refugia, suspirar como um fantasma adormecido. E agora? Para onde iriamos? Dormiríamos no carro em baixo da ponte? Estava pronta para pegar o telefone e ligar para meu pai, um momento de fraqueza e desespero ligados aos calafrios que aquele mausoléu me causava.

Claro que não liguei, primeiro porque lembrei que aquilo tudo era culpa dele, e apesar do meu instinto de garota em apuros pensar em chamar o heroico papai, ele era o primeiro grande vilão dessa história.

E o segundo e mais preocupante motivo, é que no momento que pus minhas mãos no celular, dei de cara com o maior e mais terrível monstro da fazenda Amanhecer:

-Não tem sinal – soltei em um grito agudo.

- O que? – Perguntou minha mãe, se aproximando do carro para se certificar que eu estava bem. – O que houve?

-Não tem sinal, não tem sinal. Não tem sinal. - Repeti meio estabanada, chaqualhando o telefone na frente dela. – Sem wiffi, sem WhatsApp, sem Instagram, sem facebook, sem sinal.

- Ah, isso. - Suspirou mamãe se apoiando na lateral do carro. - Eu imaginei que isso aconteceria.

- Como pode ter imaginado? - Rosnei- saiu daqui a vinte anos, nem existia celular, mas agora é diferente, não posso viver sem celular.

-Seu celular continua na sua mão. Pode continuar viva docinho

- Sem sinal! É um pedaço de lata inútil.

- Você está reclamando à toa.

- Você não sabe qual é a sensação mãe, conheceu o telefone a menos de dez anos, minha relação com ele iniciou na maternidade. As enfermeiras já tiravam fotos de mim e postavam no facebook

- Ninguém tirava fotos de você Rafaela, e não haviam celulares com câmera quando você nasceu, aliás facebook foi criado em 2004 e não tinha como...

Mas ela não pode terminar seu discurso "nem tudo gira em torno do facebook" pois um tiro foi disparado sobre nossas cabeças.

O som foi estridente espalhando no silencio do campo, e ecoou em harmonia com os berros assustados que soltamos ao ouvi-lo. Era como uma bomba estourando em nossos ouvidos, apesar de ser em essência apenas um pequeno cartucho com uma quantidade mínima de pólvora, atirados a esmo no ar. Assustada olhei automaticamente para a fonte do tiro, e parada em frente à casa em ruinas estava uma cópia idêntica porem mais velha da minha mãe.

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