16. Teste do nosso amor. (Jade)

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Você aprende nas aulas de teatro muitas técnicas para se afastar do seu "eu" pessoal. Para separar o personagem da sua alma, do seu eu pessoal, como se pudesse encapsulá-lo por um tempo e, depois, buscá-lo de volta.

No entanto, eu estava prestes a contracenar com Mike e não conseguia me lembrar bem como era aquela técnica da respiração, do isolamento da voz. Não dá, meu coração está inteiro atordoado, batendo e me atrapalhando. Tenho vontade de dizer ao diretor "mande ele parar de existir dentro de mim, senão, não consigo atuar". Mas, não posso reclamar de um ruído ou da temperatura. É algo que acontece apenas ocultamente dentro de mim. Nesse ponto em que me prendo: ninguém sabe, Jade! Você pode fingir que está tudo relax e só precisa interpretar uma cena que já até gravou anteriormente.

No entanto, ele saberia tudo sobre mim. Mike me conhece tão bem que poderia ir comprar calcinhas por mim ou preparar a comida que quero sem me perguntar qual era...

Entendo que meu medo é, então, lhe dar vantagem. Eu egoistamente não gostaria de ajudá-lo nessa. Qual traição viria depois dessa? Qual vou somar a lista de surpresinhas e revelações para minha coleção?

O pior é que meu coração bandido continua a gostar dele, como se, com esperança, aguardasse algum afago, amor ou intenção, que justifique tudo e seja algo maior e dê sentido a esse quadro caótico que pintamos desde o começo.

Mike faz o sinal com o dedo de um minuto para o diretor e caminha até mim com convicção e olhos felinos. Olho desesperada para os lados e todos o respeitam sem bufar ou se chatear com o atraso. Eles tem mais confiança em si próprio que em mim e acredito que em pouco tempo nem terá mais espaço para meu estrelato e serei só a coadjuvante.

Então, para na minha frente, segura com firmeza o lado esquerdo da minha cintura e me vira delicadamente para trás da parede de um cenário e me deixo conduzir seu comando sobre meu corpo. Seu rosto está bem perto do meu.

— Jade, eu sei que posso fazer esse papel, mas, sem você ele será pequeno. Não vamos lutar um contra o outro quando nós dois somos muito bons juntos. Eu não quero trapacear e menos ainda jogar contra você. Vamos jogar juntos. É para o seu bem, para você conseguir terminar esse trabalho e recuperar sua imagem. E também é para eu ter uma chance de lutar por algo que sempre quis. Você era só uma dançarina que teve uma chance e eu também... ãnh, você sabe, quero ter uma chance...

— Por que acha que sou mesquinha e quero te fazer mal? — desesperei-me quanto ao fato de ouvir meu pensamento!

— Porque eu conheço o seu olhar como um espelho.

— Se quer ser ator, deve saber separar as coisas e atuar...

— Como seu produtor, eu digo: boa sorte, vamos salvar esse filme e você pode. Como seu amigo, eu te peço, me ajude.

Ele me soltou e tive vontade de perguntar para suas costas "e como meu amante, namorado, ou sei lá o quê"? O que esse me diria? Me daria um beijo de boa sorte.

É desse que sinto falta, entende? Era o lado que mais me mudou, o do homem carinhoso e atencioso que eu perderia. Eu sei o que é o sucesso e a fama. Os muros subirão entre nós e mulheres se enfileirarão ao seu redor, tornando-o inacessível.

Demorei tanto para encontrar alguém a quem eu amasse e agora eu queria que ele se desse mal e continuasse só sendo meu produtor. Tudo igualzinho como antes.

Mas, Mike quer ganhar e não posso chamar isso de amor se eu também não lhe der uma chance, mesmo que a chance mude tudo e me afaste dele para sempre. Se não for dessa forma, meu amor não seria puro e genuíno, só um capricho.

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