Draculea

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Do alto do prédio da Gazeta, visualizo a Avenida Paulista de ponta a ponta: pequenas formigas aglomeradas num trânsito robótico, num vaivém nauseante. Os agudos e frios sons das buzinas inebriam a minha memória, fazendo-me sentir um êxtase tão prazeroso que toca lá no fundo deste negro e histórico coração. Os flashes de antigas batalhas e o som das trombetas que as anunciavam eram semelhantes, diferenciando apenas que naquele tempo maldito a luta era corpo a corpo e com duração de poucos dias. Hoje, a luta é contra o estresse, contra as modernas doenças que acabam com artérias, invadem corpos e mentes amaldiçoando fracos corações... Sinto a dor destas formigas e sinto pena ao olhá-las lá embaixo, indo para suas casas para que no dia seguinte, logo cedo, estejam de volta, e isso se repetirá dia após dia, ano após ano, até o corpo adoecer, envenenando o que lhes é mais precioso, o sangue. Estou doente, pois também estou contaminado, o sangue deles corre em minhas veias e sinto muita dor, uma dor infernal... Sinto algo escorrer em minha face, uma lágrima, a primeira em muitos milênios. Lembro de ter sentido algo semelhante quando vi minha mãe ser aprisionada eternamente nos confins do inferno, simplesmente por ter amado mais do que devia. Lilith, minha mãe, não teve julgamento e muito menos perdão daquele que a criou. Temida na idade média e censurada nos manuscritos bíblicos, hoje reina ao lado do banido anjo caído Satanás, e os excluídos e malditos compõem sua legião de eternos e escravos súditos. Afinal, o que é certo e o que é errado, além de um aglomerado de regras criadas pelo próprio homem? Por que tenho que segui-las se sou eterno e não obedeço a um Deus que castigou eternamente e severamente aquela que me pariu?

Olho para a grande bola de fogo se pondo atrás dos prédios cinza. Minha gengiva se retrai e meus caninos ficam expostos. Minha visão torna-se mais aguçada, como de todos os seres da noite. Visualizo minha provável presa. Minhas narinas se retraem, sinto o seu delicioso e vicioso aroma de perfume francês contrabandeado. Meus punhos se fecham fortemente e minhas veias pulsam freneticamente. Num único e certeiro salto atinjo a calçada. Uma criança com a mãe numa banca de jornal vê minha proeza. Mostro meus caninos. Ela finge esquecer o que viu e baixa rapidamente a sua pequenina e mortal cabeça. Dou uma forte tragada até meus pulmões se encherem por completo.

Ela está do outro lado da avenida, como sempre, às 18h30. Meus olhos vacilam ante o perigo de ser descoberto. Fico imóvel. Fixo o olhar em seus vermelhos cabelos que esvoaçam sob um simples gesto dos ventos. Sua face não apresenta felicidade, nem maldade, nem coisa alguma. Espero. Ela fica estática na beira da calçada. Olha para o nada, para o profundo e escuro nada e, numa brecha, atravesso a avenida sem ao menos me preocupar com os furiosos carros e nervosas motocicletas. O tempo para. Caminho com devoção em sua direção. Ela continua estática e desta vez parece olhar para os olhos meus. Meus passos inebriam nossa proximidade. Paro em sua frente, e apenas um palmo de distância nos separa. Seus olhos continuam estáticos, frios e sem movimento. Diferente do seu coração que pulsa num ritmo frenético e acelerado. Seu sangue, quente e doce, corre rapidamente nas veias. Seguro o seu braço direito. Ela sorri. Atravesso a extensa avenida em sua companhia. Penso em pronunciar palavras, mas antes de tal ato outro pensamento diz que não. Minha poderosa e rouquenha voz poderia revelar o meu segredo, então permaneço mudo, torcendo para que demoremos uma eternidade até alcançarmos a calçada, fato que não se concretiza, pois logo estamos nela. Ela agradece e, educadamente, faço-lhe um gesto de cordial reverência. Ela não nota, como sempre. Mesmo assim, acompanho seus passos até os degraus do ônibus que a conduzirá até sua residência. Penso em acenar quando ela parte. Mas seu olhar continua fixo para o nada. Ela se vai, mas sei que amanhã, neste mesmo horário, estará aqui.

Minha amada, eterna amada Catherine. Acompanho seus passos há quatro séculos, mas prefiro preservá-la de minha demoníaca e eterna doença denominada Eternidade. Catherine renasce, falece, renasce e falece eternamente. Eu a espero, pacientemente, como sempre.

Ela se vai. O seu frio olhar permanece em minha mente. Meu segredo está guardado. Ela nunca saberá quem sou ou o que sou. Ela é cega.

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