Três anjos com suas roupas estranhas e armas esquisitas entraram dentro da nossa casa. Eles apontaram as armas para nós. Mamãe falou para eu ficar calmo que tudo daria certo. Então, os anjos nos disseram algo que não consegui entender, mas mesmo assim, começamos a andar para fora da casa, sendo escoltados por eles.

Ao chegarmos a porta, havia um quarto anjo, o que segurava a prancheta. Ele disse algo para os anjos que nos escoltavam e então, os outros três começaram a nos empurrar para as carruagens. Havia três delas lá. Nunca irei me esquecer delas. Estavam uma do lado da outra, de uma maneira perfeita com a parte traseira aberta. Eu pensei naquele momento, que talvez fosse algo bom, pois iríamos nos encontrar com o nosso criador. Mas então, me lembrei de que só éramos buscados quando dormíamos para nunca mais acordar. E isso me deixou triste.

Nós andávamos abraçados. Meu pai passou o braço atrás do ombro de minha mãe e ela me apertou com a mão direita de um jeito que doía, mas eu não queria soltá-la. Porém, quando nos aproximamos mais das carruagens, um outro anjo que usava uma máscara engraçada nos parou novamente. Ele

também tinha uma prancheta. Então, disse algo para os três atrás de nós e apontou para duas carruagens diferentes. Pelo olhar do meu pai, ele já soube.

O celestial de máscara segurou o meu braço e começou a me puxar. Mas papai não queria deixar. Ele começou a se debater para se soltar enquanto mamãe gritava. Era como se parte de mim ficasse para trás. Eu também estava gritando. Aquilo era terrível, nada como eu havia imaginado. Meu pai, então, deu um soco na cara do anjo que o segurava.

E aquela foi a ultima vez que ele fez algo.

O de máscara, que me puxava, sacou sua arma e disparou. Papai caiu no chão e fechou os olhos. Começou a dormir. Mas o mais estranho de tudo, foi que os anjos não colocaram meu pai na carruagem. Simplesmente o deixaram ali, mesmo com ele tendo ir dormir para sempre.

Me jogaram dentro daquele veículo voador de ferro. A porta se fechou, dando tempo para eu olhar para o papai e para mamãe, que já não mais gritava e tinha uma expressão serena em seu rosto, pela última vez.

A carruagem era fria, escura e terrível. Tinha muitas outras crianças como eu, como também tinham alguns poucos adultos. Mas caso os anjos nos pegasse conversando, apanhávamos. Na época não sabia o por que disso, mas hoje entendo que faziam isso por um possível medo de motim.

Tudo lá era horrível. A comida era, pra se dizer o mínimo, um nojo. E todos tinham meio que brigar para poder comer. Eles jogavam para pegarmos. Um dia, um dos adultos me deu um soco para ficar com a fruta que tinha pegado. Chorei muito e não comi nada depois.

Mas eu sabia que tudo aquilo teria um final bom, um final feliz. Sabia que a carruagem iria chegar ao reino do criador e que ele sim seria bom. Quem sabe isso tudo não passava de um teste ou algo assim? Sempre pensava nisso enquanto estava na carruagem. E sempre pensava na mãe e no pai. Como eu sentia falta deles... chorava todos os dias.

O tempo foi passando. O reino do criador nunca chegava. Parecia que estávamos confinados a ficar na carruagem pelo resto da eternidade. Eu completei onze anos lá dentro. E a cada segundo, os anjos iam me destruindo mais. Já quase não chorava por conta de meus pais. Eis que completo doze anos. As lágrimas já haviam parado e o reino dos céus não havia chegado. Já havia perdido as esperanças.

Mas enfim, chegamos. O reino dos céus. Mas não era como eu esperava. Ele era outro mundo, como o nosso. Um mundo com o seu próprio céu. Mas não era verde e azul igual eu via nas fotos do nosso planeta na

escola, e sim vermelho e marrom com várias outras cores escuras. Parecia morto.

A carruagem desceu até o solo e após dois anos lá dentro, a porta finalmente se abriu. Um anjo disse com uma voz robótica em nossa língua para segui-lo. Nós formamos uma fila ele nos levou para um campo aberto, onde tinham mais algumas outras carruagens celestiais. Eu vi que estávamos em um lugar com muros altos, cercas e prédios de pedra enormes. Aquilo era algum tipo de hospital ou...

Antologia: Clube de Autores de FantasiaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora