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Prólogo



O fraco contorno da lua já se punha alto no firmamento quando o frio sussurro da madrugada se desprendeu da escuridão celeste e deslizou em forma de brisa por entre um mundo de seres inferiores, adentrando o entreabrir de uma pequena janela para acariciar as faces do jovem vulto que lá encontrara. Encoberto pelas sombras que emprestara da noite, ele se colocava de pé, imóvel, diante de uma velha senhora de cadeira de rodas. Seus olhares se mantinham fixos um no outro sem expressar qualquer medo ou hesitação. Um inacabável e silencioso momento se transcorreu até que o vulto desse um passo a frente, permitindo que a quase inexistente luz do mundo exterior se refletisse em seu rosto, revelando suas feições.


Tratava-se de um jovem alto que não aparentava ter mais que dezoito anos. Seus cabelos eram castanhos e desgrenhados e seus olhos, de um escuro muito profundo. Apesar de sua aparente jovialidade, seus trajes e trejeitos desmentiam tal pensamento. Por debaixo de um escuro sobretudo, ele vestia uma velha camisa negra de colarinho e calças tão surradas pelo tempo que já não se podia mais distinguir suas cores originais. Ele se adiantou um pouco mais e, com um estranho brilho em seu olhar, se curvou em direção à anciã e a tocou no braço.


–Me desculpe por tê-la feito esperar tanto. – disse ele com voz suave – Eu nunca fui capaz de me perdoar por aquilo... Quando me fizeram acreditar que você havia morrido, o meu mundo caiu em pedaços. Mas eu sabia que era mentira... De alguma forma... E eu nunca me perdoei por aquilo.


A trêmula mão da senhora se estendeu até o abdômen do vulto, onde ela, após tanto tempo, reencontrou as cicatrizes.


–Não há o que perdoar, Steve. – ela disse, abalada – Você salvou minha vida.


–Mas a que preço? – indagou Steve, com um olhar amargo – Eu troquei uma vida por outra... Eu o matei.

Senhores do Anoitecer: Lua de SangueWhere stories live. Discover now