-O que é que me querias dizer?-Perguntei assim que me sentei na cama ao lado dele.

-Eu pensei muito nisto, Maya...-Ele começou e depois respirou fundo.

-Até tenho medo.-Comentei alto o suficiente para ele ouvir e soltar uma gargalhada.

-Devias.-Ele disse na brincadeira e eu sorri.-Mas agora a sério, isto é importante.

-Desembucha, rapaz.-Pedi.

-Ok. Eu estive a pensar se te devo contar isto ou não mas vou contar. Acho que já chegaste a um patamar da minha confiança onde tu podes saber isto, és a pessoa em quem eu mais confio.-Ele admitiu.

-Awwwwn. Que fofinho.-Comentei sorrindo e ele riu.-Mas também foi um bocado cliché, Ash. A tua previsibilidade está a aumentar, isso é preocupante.

-Ross! Eu estou a abrir-me contigo, podes prestar atenção?-Ele perguntou sorrindo um pouco e só aí é que eu me apercebi do que estava a acontecer.

-Ok, eu presto atenção.-Disse e ele assentiu.

-Então aqui vai. Eu pensei muito neste assunto e acho que estou preparado.-Ele prosseguiu olhando para as suas mãos.-Tu conseguiste enfrentar o teu maior medo, roomie. Tu conseguiste ir ao memorial sozinha. Mesmo sabendo que te ia custar e que te ias a baixo, conseguiste ir e fizeste o que te parecia impensável há uns anos atrás. Tu contaste-me tudo e confiaste em mim.-Admito que me senti um bocado culpada por não lhe ter contado sobre a Tess mas apenas ignorei.-Acho que é a minha vez de enfrentar os meus medos e de me abrir com alguém.

-Oh meu deus tu vais...

-Sim, vou.-Ele interrompeu-me olhando para mim com um certo medo.

Aproximei-me mais dele e pousei a minha cabeça no seu ombro.

-Está tudo bem, podes falar.-Eu acalmei e ele colocou o seu braço sobre o meu ombro.

-Eu sei.-Ele disse num pequeno sorriso.-Tudo começou quando eu andava no sexto ano.-Ele começou a contar a sua história.-Eu vivia com o meu pai e a minha mãe aqui, em Nova Iorque. Ele nunca foi muito presente na minha vida. Todos os dias chegava a casa a meio da noite, bêbado. Ele...ele maltratava-me.-Ele admitiu, engolindo em seco e eu entrelacei e minha mão na dele.-Às vezes eu chorava ou irritava-me com alguém, chegava a casa triste e ele em vez de me acalmar, maltratava-me. Acho que já percebeste, pelo menos numa parte, porque é que eu não me abro com ninguém.-Olhei para ele sem me levantar a minha cabeça do seu ombro e vi-o a sorrir sem vontade.-Enfim, no sexto ano ele saiu de casa. Um dia cheguei da escola, no final do ano, e tinha uma mensagem dele em cima da mesa da cozinha a dizer que foi embora. Do nada ele desapareceu. Nunca soube porquê. Nem eu, nem a minha mãe. Por um lado fiquei feliz por ele ter ido, por outro fiquei mal por o meu pai me ter abandonado a mim e à minha mãe. Não é fácil, não é?-Ele perguntou com uma voz que ameaçava o choro.

-Ashton, eu não sabia...-Comecei mas ele interrompeu-me.

-Comecei a cortar-me no início do sétimo ano, mesmo antes de te conhecer.-Ele prosseguiu, dando sinal que ainda não tinha acabado.-Eu não sei porque é que fui estúpido o suficiente para dizer mal de ti quando sabia o quanto isso custava ouvir mas, sei lá, eu estava demasiado magoado e eu sou demasiado egoísta.-Ele começou a fazer pequenos círculos na minha mão com o polegar.

-Tu não és egoísta, Ash.-Eu neguei.

-Anyway...-Ele disse mudando um pouco de assunto.-Nos anos seguintes, até ao nono ano, eu e a minha mãe vivemos com algumas dificuldades porque o meu pai também ajudava nas contas da casa e agora não estava lá. Dois meses antes de nos mudarmos para Indianápolis a minha mãe foi despedida do emprego porque, e passo a citar, "não estava mentalmente e emocionante estável" segundo os seus colegas. Acho que as memórias de Nova Iorque estavam a dar cabo dela. Como o dinheiro não chegava para a casa onde estávamos a viver, tivemos de ir viver para um apartamento mais pequeno que tivemos de partilhar com uma senhora desconhecida que também era meia passada da cabeça. A minha mãe acabou por ir a um psicólogo que uma amiga dela lhe aconselhou e ele não lhe levou dinheiro nenhum, o que foi ótimo. Passamos mais ou menos dois meses assim.-Ele disse enquanto uma lágrima escorria no seu rosto.-Um dia cheguei a casa e a minha mãe contou-me que os meus avós tinham morrido e que nos íamos mudar para Indianápolis. No momento pensei que nos íamos mudar porque ela queria estar na terra onde nasceu, onde os seus pais nasceram, onde estavam todas as recordações que ela tinha deles e além disso ela disse-me que tinha arranjado emprego lá. Só no primeiro período deste ano é que soube que a casa onde nós estávamos era herança dos meus avós e acho que a partir daí já sabes a história.-Ele concluiu limpando as lágrimas que lhe caíam.

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