QUATRO

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Isabel não era princesa desse reino, porém qualquer pessoa admitiria a autoridade que a sua presença fornece apenas pelo seu tom de voz, sua postura e a energia que exala:

            — Melissa não quer falar com você. Não há nada aqui que você possa usar para vender jornal.

            A jornalista parecia ter um terço do tamanho de Isabel, se recolheu e se retirou calada.

            Imaginei se, por conta do nosso momento de identificação no velório de Pablo, Isabel tenha passado a pensar que nós somos amigas, o que é um tanto estranho. De qualquer forma, estava agradecida por ela ter surgido.

            — Obrigada — falei baixinho.

            — De nada.

            Depois de um segundo sem saber o que fazer, me virei para continuar o meu trajeto.

            — Espera! — Isabel disse. — Preciso muito conversar com você.

            Parece que o mundo inteiro quer conversar comigo.  


Isabel me pediu para acompanhá-la, entramos em sua diligência, com um guarda de plantão no lado de fora.

            — Está quente aqui dentro — reclamei. — Não podemos conversar na praça?

            — Não — Isabel respondeu. — Não é seguro.

            Isso me intrigou.

            — Sobre o que você quer falar?

            — Sobre isso — entregou um jornal para mim. Na foto de capa havia três Águias de Rapinas, idênticas à do Pablo, lado a lado. Não tive coragem de ler a manchete. — Você entregou os direitos da Águia de Rapina para o reino? — perguntou.

            — O quê? Não! É claro que não! — respondi, ofendida. — Eles tomaram de mim. O rei disse que ele é a lei e assinou os documentos em meu nome, quando eu recusei o fazer.

            — Entendi — Isabel respondeu balançando a cabeça. — Me desculpe, mas eu tinha que perguntar. Isso não pode acontecer... Eles irão usar a máquina para guerra.

            — Se eu bem me lembro, você era a favor da guerra...

            — Isso não é sobre mim! E nem sobre você! — Isabel se exaltou. — Isso é sobre Pablo! E o seu sonho! Ele não queria que o trabalho da sua vida fosse usado na guerra! E eu não posso permitir isso, independente da minha opinião, em puro respeito à sua memória! — a princesa estava certa. Respirou fundo e voltou a falar mais calmamente. — Eu sei que nós nunca fomos amigas, Melissa. Mas Pablo te amava de verdade, eu sei disso. Precisamos impedir que eles façam isso com o trabalho de vida do Pablo.

            A princesa estava certa.

            Isabel respirou levemente olhando nos meus olhos. Pela primeira vez, falou algo em um tom de voz com o qual me acostumei a ouvir:

            — Eu sempre senti ciúmes de você...

            Do que ela estava falando? Foi como se mudasse completamente de assunto para soltar algo que estava preso em sua garganta. Algo que explicasse tudo.

             Não justifica.

            Mas explica.

            E como explica...

            — Por quê? Você o amava?

            — Não! É claro que não! Quer dizer... sim! Ou não... não sei. Acho que não. Mas já amei, muito. Disso tenho completa certeza. Quando éramos mais jovens eu o amava mais do que tudo e pautava todos os meus planos para o futuro numa vida ao lado dele. Todos!

            A princesa parou e respirou fundo novamente, antes de continuar.

            — Aos poucos fui percebendo o quão difícil era viver ao lado de Pablo e seu sonho. Eu era constantemente trocada e a máquina voadora era a única coisa sobre o que ele conseguia falar. A única. Fiquei muito triste quando percebi que seria impossível continuar assim. Mas eu tinha um consolo, ao menos.Para mim, Pablo foi um daqueles predestinados a grandes feitos e esse seria o único motivo para o nosso amor dar errado. Nada poderia ser maior do que a Águia de Rapina.

            Eu simplesmente não entendia como ela não estava chorando ao me contar isso.

            — Aceitei isso de bom grado. Aceitei o destino de Pablo e me mudei para longe dele, para minimizar a dor. Mas quando voltei... quando voltei... percebi que ele só falava de você. O tempo todo. Você era o grande sentido da sua vida e isso... Você entende? Só assim eu percebi que o problema não era ele, mas eu que não era a pessoa certa. Isso me doeu. Doeu muito.


            O que dizer em uma hora como essa? Eu passei tanto tempo embriagada em meu luto que não percebi que não era a única nele. Que não estava sozinha.


            Naquele momento, meu maior objetivo era não permitir que Isabel chorasse. Pois eu certamente choraria também.


            — Você tem um plano? Sobre as Águias? — perguntei. Foi o melhor que fiz. Isso ajudou a garota frágil a voltar a ser a princesa decidida que era.

            — Sim. Quer dizer... Metade de um plano. Eu tenho diversos guardas infiltrados no castelo que obedeceriam a qualquer pedido meu. Junto a eles já descobrimos um jeito de roubar todas as plantas da Águia de Rapina. O grande problema é que isso seria inútil, se eles ainda tiverem em posse as três Águias de Rapina que montaram, pois poderão usá-las como base para construir outras.

            — Você não tem guardas infiltrados na proteção das Águias?

            — Três. Não é o suficiente, eles não podem arrastar as máquinas para fora do castelo sem serem descobertos e muito menos sair voando de lá com elas.

            — Podemos destruí-las.

            — Também pensei nisso, mas ainda assim meus guardas não teriam tempo o suficiente. Quebrar uma máquina daquele tamanho levaria tempo. Precisamos ser rápidos.

            Parecia uma loucura, mas eu sabia a solução:




            — Podemos queimá-las.



MAIS LEVE QUE O AR (HISTÓRIA COMPLETA)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora