Capítulo Um - Mudança

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 Para meu pai, meu melhor amigo.



Megan não queria realmente se mudar, mas também não queria magoar o pai.

As paredes nuas e muito brancas do apartamento davam uma sensação desconfortável de vazio e silêncio. Não era culpa do lugar em si, já que Megan sentira a mesma coisa em todos os outros apartamentos que visitara com o pai e a irmã. O apartamento novo não tinha nada de errado; na verdade, até que era bem legal. Ele só não tinha a sinfonia de um lar.

Os barulhos, os cheiros, as lembranças.

Tudo era novo. E branco.

Mas essa sinfonia, como Megan gostava de pensar, também deixara sua casa. O outro apartamento ainda era um lar, mas não era o mesmo e jamais seria.

Isso foi há quatro anos.

- E então, meninas? Gostaram?

Renato olhou para as filhas, Megan, a mais velha, e a pequena Minako, ou Mina, como todo mundo a chamava, com uma ansiedade evidente nos olhos escuros e cansados. Megan deixou que a irmã falasse primeiro. Estava bem claro que a felicidade de Mina era genuína, como geralmente deve ser a felicidade das crianças de sete anos.

- Eu gostei, papai! Gostei muito!

O pai sorriu um pouco mais aliviado, mas logo voltou sua atenção para Megan, disfarçando muito mal seu nervosismo; as mãos torciam-se umas nas outras e o sorriso denunciava o desconforto. A garota sabia que o pai precisava de sua aprovação, era quase como uma necessidade física. Agora ela era a mulher da família, apesar de ser apenas uma adolescente.

Megan cruzou os braços, desconfortável; era como ocupar o lugar da mãe, um lugar que não lhe pertencia. Ela só conseguia imaginar o que Marina diria nessas situações e não achava que fazia um bom trabalho na tentativa.

- E você, Megan? Gostou?

- Claro, pai - a garota disse, forçando entusiasmo na voz, mesmo com aquele remorso amargo subindo à garganta por não ser completamente honesta. Ela sabia, no entanto, que nenhum lugar a faria feliz de verdade, não importava se fosse esse apartamento ou outro, ou até uma casa. - Eu adorei.

Agora sim seu pai parecia aliviado de verdade. Ela tinha sorte que ele não era muito perspicaz nas nuances de sentimentos. Sua mãe logo notaria que Megan não estava sendo sincera.

- Isso é ótimo! - ele disse com um sorriso que a garota não via há muito tempo.

Aquilo lhe deu a sensação de ter feito a coisa certa ao não ser tão franca quanto gostaria. Ele caminhou pela sala vazia, seus sapatos fazendo barulho no piso de madeira. Megan observou-os e seus pensamentos viajaram para longe; os sapatos precisavam ser lustrados ou, melhor ainda, ele precisava de sapatos novos.

Ela sabia que o pai evitava comprar coisas para si mesmo. Era tudo para ela e Mina, especialmente agora que eram só os três. Megan teria que ela mesma comprá-los, como sua mãe faria.

- Esse lugar - o pai continuou - vai ser muito bom pra nós, vocês vão ver. Deveríamos ter feito isso há... anos... Vocês sabem... - ele hesitou. - Eu sinto muito.

- Pai, nós não tínhamos dinheiro na época - Megan se apressou em dizer. - Todas aquelas despesas que surgiram... A gente tinha um montão de contas para pagar.

- Eu sei, mas... - ele não terminou a frase. Ao invés disso, resolveu mudar de assunto. - Tem três quartos, um quarto pra cada uma de vocês!

Mina finalmente abriu a boca.

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