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A partir do dia da briga eu era outro cara. Firmei ainda mais na academia e fui convidado a fazer parte dos skinheads. Eles eram da pesada mesmo. Ninguém se metia com eles, era meio que estranho! As histórias era as mais sinistras possíveis. Os diferentes sofriam nas mãos desses caras, eu me colocava no lugar deles.
O convite para fazer parte dos skinheads partiu do próprio David. Eu sabia que ele era do grupo, entretanto nunca tínhamos conversando sobre o assunto. Ele tinha uma birra, pra lá de manifesta, com os homossexuais. Aliás, esse era o assunto predileto nos intervalos e nos treinos.
Como sempre, comentei com o Caniço. Foi a primeira vez que eu o vi assustado.
- Mano, na boa, é fria! - foi tudo que o Caniço resmungou. Não continuei o assunto. Estava discordando dele por dentro.
Mesmo assim a zoar dos homossexuais. Repetia na escola as chacotas que ouvia do David. Muitos pareciam se divertir. Então continuava. Fui evoluindo e pegando cada vez mais pesado. Comecei a pegar no pé dos meninos, no banheiro. E claro jogava na cara deles que eles tinham de virar homens, que ser daquele jeito era vergonhoso, e coisa do tal. Até o dia em que fui chamado à coordenação. Fui acusado de bullying!
- É verdade que você está discriminando e maltratando fisicamente e psicologicamente os meninos que são homossexuais? - indagou a diretora da escola, com uma voz calma e serena. Continuei de cabeça baixa, agora imitando o Caniço. A minha atitude já foi um consentimento.
- Então é o seguinte: - continuou a diretora - só vou falar com você desta vez, se isso se repetir mais uma única vez, terei de pedir sua transferência de escola. Estamos combinados?
Saí sem dizer uma única palavra, morrendo de raiva por dentro. Eu havia sido humilhado! Eu mal consegui esperar a aula terminar. Na saída, longe de alguns quarteirões da escola, peguei os meninos e descontei toda minha raiva neles. Eu sabia que eles nem sequer eram aceitos em casa, então não daria nada. Bati neles com vontade, olhava em seus olhos e via tristeza. Não parei até que fiz o sangue correr. Alguns espectadores olhavam a cena com compaixão, mas só ouvia os gritos de incentivo.
Fui para casa com a alma lavada! Aquilo, sim, tinha sido uma demostração de superioridade, pensava eu com meus botões. Tomei um banho, almocei e dormi acabei tendo um sonho não muito agradável:
Era de manhã estava indo para escola então o céu começou a escurecer e de repente tudo havia escurecido, aparentava ser de madrugada, estranhei pois tive a impressão que todo mundo havia desaparecido, até ver minha irmã saindo de uma rua, ela tava meio distante de mim comecei a correr atrás dela gritando seu nome.
- Nati, espera, o que ta acontecendo? - falei com a voz meio trêmula.
Ela parou de andar eu também parei na hora que fitei o olhar nela, ela virou bem devagar seu olhos passavam uma certa tristeza, não intendia o que tava acontecendo.
- Caco, a vida é assim uma bagunça, às vezes escolhas são fundamentais mais as vezes elas mesmos fazem você, tem coisas que não podemos intender. - disse ela com uma voz falha.
- O que você ta falando? E cadê todo mundo? Que estranho. - falei querendo as respostas imediatamente.
Até que ela começou a se despedaçar, como um folha em pedacinhos, seus braços iam se deformando lentamente.
- O quê... O quê é isso que tá acontecendo com você? - falei em espanto.
- Nada. Só estou voltando pro meu lugar. Nunca se esqueça do que eu te falei... - seu rosto começou a se despedaçar, metade do seu corpo já tinha se transformado em pequenos pedaços de papel. - você vai aprender ainda...
- Não estou intedendo Nati! - disse quase gritando.
- Está bem vou te contar, na verdade...
De repente acordei em um susto que nunca tive antes, estava suando, olhei para a janela e comecei a pensar.

                             *
À tarde fui para a academia, mas a academia estava fechada. Fiquei megabolado. Nunca tinha visto a academia fechada!
Então fui me informar com uns caras que ficavam lá por perto.
- Uai, cara! Você não vê notícias, não?
- Não vi nada, O que foi, mano? - perguntei.
- O David se deu mal. Participou numa briga com os punks, um cara morreu e ele está em cana.
- O quê?! - fiquei espantado. Caramba!
Fui direto para casa, pensando no sonho e pensando no David. Não demorou, chegou a mãe de um dos meninos. Chamou, chamou. Como eu estava só em casa, fiz de conta que não havia ninguém e não a atendi.
Pouco adiantou. À noite ela voltou e fez um grande barulho. Falou um monte, mas tive a sensação de que meus pais não a ouviram. Quando a senhora foi embora, meu pai me olhou, deu uma risadinha e exclamou:
- Pelo menos meu filho é homem. - e foi para o quarto. Minha mãe não disse nada. Fiquei muito grilado aquilo não podia ser verdade.

                                *
Mas a Nati me chamou, e os olhos dela estavam marejados. Entrou comigo no quarto, sentou na cama, olhos voltados para o chão e falou :
- Caco, eu sempre te compreendi, brother. Sempre estive do seu lado. Sempre te defendi. Sincera mente, achei que você estivesse muito melhor. Mas o que você fez hoje me decepcionou profundamente. - ela falava como no sonho, seus olhos passavam tristeza, e sua voz estava igualada ao do sonho. - Vou te contar uma coisa minha, mas não comente com ninguém. Eu também... Eu sou homossexual.
- Você?! - perguntei, com um espanto que nunca tive antes, era como uma facada em mim, não acreditava por um momento.
- Eu, sim, Caco! Eu! E não pense que é fácil encarar o prencoceito das pessoas. Eu sofro bullying e homofobia todos os dias por ser homossexual. Se coloque no meu lugar, cara! - disse isso com muito sentimento e aos prantos.
- E você acha que eu escolhi isso? Não sou assim por opção, não. Isso é uma definição. Não se escolhe.
Eu permanecia calado sem conseguir saber o que sentia e nem sequer o que pensar.
- Também não é safadeza, Caco. Safadeza é ser promíscuo, e aí tanto faz ser hétero ou homo. Você está entendendo, Caco? Você está entendendo? - gritou e saiu do quarto, não suportando mais aquela conversa.

                                  *

Aquilo me desconcertou legal. Deixei-me cair na cama e minha cabeça doía, paracendo querer estourar. Que sinuca! Eu tinha sido vítima de bullying por ser gordo. Sem me dar conta estava fazendo o mesmo. Entendi com a minha dor do passado, e com a dor que a Nati estava sentindo agora, o significado do que eu estava fazendo.
Eu nunca havia pedido perdão a ninguém, e só sabia, até esse dia, o mal que os outros me fizeram, mas nunca flagrei que também era malvado. E que crueldade! Deveria procurar a Nati, mas quem disse que tinha coragem. Cadê o valentão? Cara, isso acabou comigo!
No outro dia faltei à escola e começei a passar mal.

CacoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora