Rael
Troco a página do livro e arqueio a sobrancelha, o som intrigante de botas raspando nas paredes me fez olhar afiado pelos cantos dos olhos em direção a janela, onde os raios de sol dourados e quentes o suficientes para fazer a pele arder, inundava o hall de meu quarto.
Me levantei vagarosamente, meus pés se movendo como as patas de um felino atento aos redores. Olhei, por cima das páginas amareladas de meu livro, para minha espada em cima da cômoda. O arfsr baixo de alguém chegando na janela me deixou desconcertado, assim como seu silêncio abruptamente.
Me virei devagar, conferido a figura miúda de olhos arregalados. Seus olhos e uma estreita faixa de pele descoberta pelo lenço negro cobrindo milimetricamente cada canto do seu rosto, cabeça e pescoço.
Da distância de longos dez passos, eu podia jurar que aquele par de olhos arregalados eram os mais bonitos que eu ja tinha visto em toda minha vida. Movi meu pé para me virar mais, e como uma corça que pressente o perigo de um predador, a criatura se moveu para fugir por onde veio, com o sol banhando suas costas.
— Não esperava que estivesse alguém aqui, não é? _ minha voz me surpreendeu pela rouquidão arrastada de horas em silêncio e surpresa pela nova companhia.
O topázio azul, quase esverdeado, em suas íris era profundo e intenso, a distância não me permitiu captar cada detalhe, o dono estreitou suas pálpebras em desconfiança afiada. Era uma garota, eu podia sentir isso graças aos traços delicados de seus olhos, seus cílios alongados, fartos e negros.
— Não era. _ respondi minha própria pergunta. _ Eu mudei de ideia no meio do caminho para o quer que eu tinha que fazer e resolvi apenas ficar aqui...o dia todo, sem fazer nada.
Ela me seguiu com um olhar vigilante enquanto me virava de frente para ela, fechando o livro em minhas mãos com cautela. O fato de alguém ter invadido meu quarto pela janela em plena luz do dia, era um sinal de perigo percorrendo minha espinha. Seus olhos cairam em meu peito nú, na marca próxima a minha clavícula, a vi piscas algumas vezes como se estivesse em uma conversa afiada dentro da própria cabeça.
— Se veio para me matar, é melhor tentar logo. O sol está escaldante, e dúvido que esteja bem com o calor, com todo esse tecido sufocando seu rosto.
— Não sou assassina!_ sua voz foi como um raio, e eu podia jurar que a ofendi quando rugas surgiram em seu olhar, demonstrando que ela teria apertado as sobrancelhas com raiva de minha acusação.
Mas eu estava certo, era uma garota. A voz dela era aveludada, atraente, como estar escorrendo as pontas de dedos em veludo macio.
— A ofenderia perguntar então o que é? Eu posso dizer a palavra, mas não sou rude de acusar tão friamente. _ sorri ladino tranquilo, a olhando de espreita quando caminhei pelo hall e deixei meu livro na prateleira junto dos outros. _ Posso até sentir o gosto dessa palavra em minha boca. O amargor dela...
Ela soltou uma risada nasal, alta o suficiente para fazer seu peito saltar junto de seus ombros. Meu sorriso se alargou quando ela caiu seus olhos no rubi de um dos objetos de valor que eu colecionava em meu quarto. Eu vi aquele brilho malicioso, podia sentir no ar antes mesmo que ela tocasse, seus dedos a acariciar a pedra em suas palmas pequenas. Seus olhos diziam isso, que no momento em que eu virasse minhas costas, ela sairia da janela, iria até o rubi e o levaria por mero capricho.
Era como olhar para um banquete depois de dias faminto, podia sentir sua salivação, seu desejo pelo objeto, a maneira como ela apertou o batente da janela com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. E ali estava, sob aqueles olhos turquesa, a frustração de ter que esperar para roubar o que ela tanto desejava.
VOCÊ ESTÁ LENDO
À Sombra de um Rei
RomanceDoze anos depois da guerra, Thalfry se partiu em novos seis reinos independentes. Os reinos temem que o leão de Dazzo se torne ganancioso por mais poder, e derrube seus reinados para tomar suas terras. Nicolas se tornou o braço direito de Archie, s...
