CAPÍTULO VINTE E SETE

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Acordei assustada naquela manhã de sexta-feira. O motivo? Um daqueles pesadelos onde a pessoa acha que está caindo. Depois de tantas reflexões sobre o que fazer da minha vida, eu merecia um sonho mais promissor... Mas não. Acordei ofegante e levemente desesperada. Foi um alívio descobrir que havia sido apenas um sonho, mas eu queria descobrir o motivo por trás dele... O que foi uma ideia péssima, diga-se de passagem. Fiz uma rápida busca sobre o significado daquele sonho e todos diziam a mesma coisa: sinal de perigo, tensão à vista. Ah, que ótimo, não preciso de mais nada, não é?

Mas a vida parecia discordar de mim. Ela parecia achar que eu precisava de uma dose de constrangimento para agitar ainda mais o meu dia. E bom, eu faço questão de lhes contar como exatamente essa dose extra de constrangimento se anunciou na minha vida. O dia estava mais quente do que os anteriores. Não era o calor terrível do verão em São Paulo, mas me permitiria sair de casa sem casaco. Eu estava escovando os dentes e pensei que seria uma boa ideia apressar a Marcela, pois eu duvidava que ela já tivesse levantado da cama, embora tenhamos combinado de tomar o nosso café da manhã do Jardim Japonês. Abri a porta do seu quarto e... Olá, constrangimento!

Marcela e Noah estavam juntos. Fazendo vocês sabem o quê. E se estivesse frio, era provável que eles estivessem debaixo da coberta. Mas estava calor. Oh céus! Eu tentei dizer algo, mas bem, eu estava cheia de pasta de dente na boca e como se a coisa não pudesse ficar pior... Eu me engasguei. Eu não sabia se me desculpava, saía de mansinho ou tossia. Muitas opções para uma pessoa em choque. Marcela e eu somos melhores amigas e muito íntimas, mas isso não significa que eu a queira ver com um homem em momentos tão íntimos. Menos ainda com um homem que é o meu cunhado, ainda que provisoriamente. Menos ainda se esse cunhado tiver "se declarado" para mim há dois dias. Quer dizer, eu queria que ele seguisse em frente, então talvez devesse ficar feliz por esses... Acontecimentos.

Ah, eu ainda estava ali tossindo e sendo inconveniente. Esbocei desculpas incompreensíveis e saí do quarto tão rápido quanto pude. O que mais faltava me acontecer? Ah, claro. Faltava eu presenciar uma discussão entre Nico e Elena no andar debaixo, na cozinha. Eu bem que tentei me esconder, mas eu não era um tatu-bola − eu sei o que vocês estão pensando, mas esse não é o ponto. O ponto era: eu não queria estar ali. Mas estava. E não havia um jeito educado de dar o fora. Eu não tinha como saber o motivo real da discussão, mas de uma coisa eu estava certa: meu nome estava no meio dela. Eu queria apenas estar morta!!!

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(por Nico)

Coisas estranhas vinham acontecendo. Miguel retornava vez ou outra para tratar algum assunto "importante" com a minha mãe. Isso lhe dava nos nervos, eu sabia bem. Vez ou outra ele perguntava por mim, o que era um disparate tremendo e o que magoava minha mãe ainda mais. Porque não importava o que estivesse acontecendo, ele nunca perguntava por Noah. Se tudo isso já não bastasse, Elena ainda andava preocupada com os negócios da família. Tanto com sua boutique quanto com a minha livraria. Eram tempos difíceis e eu precisei demitir um dos meus funcionários para diminuir as despesas. Eu não gostava disso, é claro que não, mas não havia outra alternativa no momento. O estresse vinha me consumindo, bem como a proximidade do retorno da Nina para o Brasil. Resolvi que seria bom tirar um dia de folga para ficar com ela, mas minha mãe não pareceu muito feliz com isso.

− São tempos difíceis, Nícolas. Eu adoro a Nina, você sabe disso, mas não acho prudente você ficar tirando dias de folga dessa maneira. A livraria está com um funcionário a menos, você fará falta.

− Alguma vez eu a decepcionei, dona Elena? – perguntei com seriedade. Ela só me chamava de Nícolas quando estava estressada. – Eu não me daria um dia de folga se soubesse que a livraria precisa de mim. Gostaria que você me desse um voto de confiança.

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