Capítulo 1

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Encarei-me diante do espelho, mal reconhecia meu próprio reflexo. Todo o que era capaz de ver não passava de fragmentos do que fui um dia. Às vezes me pegava pensando em porque me esforçava para parecer bem, se meu interior era só ruínas. Entretanto, o que aprendi ao decorrer da vida era que: as pessoas acreditavam no que desejavam, sendo verdade ou não. Aquela era uma mentira que eu me esforçava para manter, assim evitava a terrível expressão de pena, constante no rosto daqueles que me rodeavam.

Senti vontade de apagar a luz do quarto e me encolher no escuro, mas respirei fundo. Olhei para o porta retrato sobre a cômoda ao lado do espelho. Tinha uma foto antiga do meu marido e filho, quando Samuel ainda era um recém-nascido. Ajeitei-o para ficar alinhado com a cômoda e soprei a poeira que havia se acumulado no móvel de um dia para o outro. Gabriela, minha amiga desde os tempos de escola, costumava rir de mim e dizer que eu era perfeccionista demais. Entretanto, a verdade era que eu gostava de viver com a ilusão de que tinha controle sobre tudo. Cada um tinha o poder de escolher as mentiras que desejava acreditar.

Olhei para o espelho mais uma vez. Mal podia acreditar que Gabriela tinha me convencido a fazer aquilo. No fundo, aceitar um pedido para sair de Jonathan não podia ser tão ruim quanto parecia. Sair com um homem qualquer em uma sexta-feira à noite parecia alimentar a mentira de que depois de tudo: eu ainda era uma mulher feliz. Mentira... Uma palavra que parecia tão constante em minha vida.

Respirei fundo, em fim, não poderia mais ficar em casa olhando para o espelho.

Dei o meu melhor sorriso para o espelho o que mais pareceu uma careta. Peguei a minha jaqueta e caminhei até a porta. Apaguei as luzes e tranquei o apartamento. Não tive pressa em chegado ao estacionamento. Entrei no carro, girei a chave e dirigi por cerca de dez minutos até chegar a um restaurante.

Deixei o carro com um manobrista, joguei a bolsa sobre o ombro e coloquei as mãos dentro dos bolsos da calça jeans. Porém, logo as tirei, não queria deixar transparecer o quão desconfortável eu estava.

Olhei para o céu escuro da noite. Era cada vez mais difícil observar qualquer estrela aí. O engraçado era que o restaurante possuía esse nome, estrela.

A Savassi, um bairro boêmio da capital, mineira, parecia cada vez mais cheio toada vez que eu ia ali. Sorria, não parece irritada, disse a mim mesma pela centésima vez. Não podia sugerir que fossemos para um local mais calmo, pois essa fala teria uma interpretação que eu não desejava.

Dei um passo para dentro das portas de madeira do restaurante. A decoração era bonita e bem pensada, fazia jus aos preços exorbitantes que eram cobrados por cada prato.

Olhei por entre as mesas decoradas com uma toalha vermelha e velas. Então o encontrei...

– Olá, Suzana! – Jonathan sorriu, ao acenar para mim – Fico feliz que você que não tenha me dado um bolo.

– E por que eu faria isso? – retribui o sorriso ao puxar uma cadeira e me sentar.

– Talvez porque fez isso nas ultimas dez vezes que eu te convidei para sair.

Por um instante ele cerrou os dentes e encolheu as sobrancelhas. Era sutil demais, porém para mim era fácil perceber tais nuances. Optei por não parecer ter notado o ímpeto de raiva.

– Eu sinto muito. – Dei a ele a minha melhor expressão de pesar. Saber reconhecer um mentiroso, fazia de mim uma boa mentirosa.

– O importante é que finamente veio. Você fica linda assim, sabia? – Ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.

O preço da verdadeLeia esta história GRATUITAMENTE!