Cinco Por Um Conto!

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Ataíde tinha interesses numismáticos, mas limitações de caráter e inteligência que o impediam de ir mais longe. Possuía, sim, algum apreço pelas moedas - por razão que explicarei mais adiante - porém a preguiça e a falta de foco o impediam de estudá-las a fundo.

Essa superficialidade do colecionador era afrontosa, quase pecaminosa.

Seu verdadeiro interesse, na verdade, era movido pela veste de intelectualidade que a numismática lhe imputava - um crédito quase automático que lhe dava certo prestígio e status perante seus colegas do escritório, do curso, da igreja, e até perante seus vizinhos. Sanava assim a incapacidade que tinha de fazer coisa alguma para parecer respeitável.

E sua decisão pela numismática havia sido meramente circunstancial, pois a caminho de seu trabalho havia uma distinta loja - e bonita de se ver - que atraía sempre os olhares de todos os transeuntes, pela beleza e curiosidade dos objetos em exposição, mesmo para os leigos. Era a loja do Seu Bernardo.

No caso de Ataíde, chamou a atenção o aspecto erudito e bem apessoado de dois homens que se encontravam no balcão a examinar alguns itens. Nesse dia ele teve de ímpeto a decisão de tornar-se um comprador de cédulas e moedas. Essa imagem lhe cairia bem.

Assim, comprados alguns acessórios próprios da arte e algumas moedas e cédulas, exibia-se perante todos, levando suas caixas, suas pastas e seus parcos conhecimentos. Parecia, aos menos entendedores do assunto, que dominava como ninguém a numismática. Uma coisa ele sabia bem: inventar estórias a respeito da raridade de uma certa moeda ou cédula - embora o ouvinte mais atento pudesse perceber a falta de coerência entre algumas narrativas e até mesmo diferenças entre detalhes das versões contadas, às vezes, num mesmo dia. Mas, em geral, era bastante convincente.

Ocorreu certo dia que Ataíde adquirira na loja um artigo recém-chegado, obtido por Seu Bernardo por um valor aquém do merecido, pois tratava-se da tentativa de expurgo de espólio de um falecido por algum parente apressado em ver seus itens transformarem-se em dinheiro líquido. O artigo era um estojo de moedas, marcado em baixo relevo com o ano de 1930, confeccionado em madeira ornamentada e com tampa de vidro, bastante desgastado, com algumas lascas no exterior; continha doze moedas da época do Império em suas divisões internas. Ataíde pagou pela caixinha trezentos e cinquenta reais, um bom preço pelo conjunto.

Ao chegar em casa, por imprudência, a caixinha caiu-lhe ao chão, quebrando-se o vidro da tampa. No entanto, o incidente revelou algo mais surpreendente. Havia no estojo um fundo falso, forrado com tecido vermelho, já um tanto descolado, na qual se acomodava silenciosamente uma nota rara de "Um Conto de Réis", datada de 1927, contendo em seu painel a imagem da Primeira Missa no Brasil, e na frente a efígie da República. Pelo seu estado de conservação, certamente classificar-se-ia como Flor de Estampa[1].

Fosse Ataíde verdadeiramente aplicado à numismática, saberia da raridade daquela nota e estimaria que valia muito no mercado. Posso lhe afirmar que ele não fazia ideia de que aquela nota poderia ser avaliada em mais de oito mil reais. Tal visão - ver a caixinha ali caída, quebrada e revelando um tesouro valioso, teria gerado em qualquer numismata sério um cair de queixo seguido da expressão "ohhh". Mas em Ataíde gerou um olhar de mero estranhamento e superficial curiosidade.

Diante daquele acidente, antes de mais nada, foi verificar o dano na caixinha de madeira e soltou um impropério qualquer pelo vidro quebrado. Depois, pegou a nota e a observou com nenhuma atenção especial, guardando-a num envelope em sua mesinha de cabeceira, para tratar dela mais tarde, talvez acrescentando-a à sua pasta de couro de papéis moeda - junto a outras irmãs pobres de pequeno valor numismático.

Semanas depois - esquecimento gerado por sua total ignorância - ao folhear sua pasta de notas lembrou-se do envelope com a nota surpresa. Levantou-se do sofá onde estava e foi pegá-lo na gaveta. Torceu a boca porque seu álbum de couro com notas - comprado já pronto - tinha apenas notas da década de 50 em diante. Tinha uma última folha com cinco lugares vagos - dois na frente e três no verso. Ele achou que uma nota de 1927 não iria combinar com aquela coleção. Decidiu que no dia seguinte, na hora de seu almoço, iria à loja tentar trocá-la por algum outro material mais compatível com aquela pasta.

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