#04 - Um Pai Anão

13 0 0
                                    

"Não sei quem são os meus pais. Eu nunca os conheci, ao menos não em uma idade que eu pudesse recordar. Costumo dizer que nasci em Verdeluz, o reino dos elfos, mas a verdade é que eu não tenho certeza quanto a isso. Escolher Verdeluz, a terra de onde se espera que elfos venham, simplesmente me poupa de várias perguntas recorrentes. Já estive em Verdeluz algumas vezes. É um lugar fabuloso mas, por alguma razão, ali eu não me sinto em casa. Na verdade, esse sentimento de não pertencer inteiramente a nenhum lugar parece ser comum entre nós aventureiros. Suspeito que parte do que nos motiva a seguir cumprindo missões mundo afora seja justamente esse não-pertencimento. Será que algum dia encontrarei um lugar onde me sentirei em casa? Não sei dizer e creio que quem dirá é o tempo."


Sharon, Neriom e a mulher-lagarto despertam com os guardas batendo na grade. Amarrados nas correntes, os três seguem para o trabalho do dia.

A elfa já se questionou bastante o porque de trabalhar ali. Fisicamente sempre foi fraca, mas concluiu que a altura seria um fator a se considerar. Poucos escravos tinham sua altura , que se equiparava à dos guardas.

Ela ergue a ferramenta e bate na parede de pedra. Continua nessa atividade até sentir o chão cheio de pequenos fragmentos. Então se abaixa e coleta os pedaços que parecem ter mais orichalcum, colocando-os em um recipiente ali perto. Então a atividade reinicia.

Os escravos mais fortes têm o privilégio de andar por toda a mina carregando esses enormes recipientes. Recolhendo os cheios, Sharon não sabe para onde, e trazendo os vazios.

Há corredores mais quentes que outros. Há alguns mais ventilados. A mina é enorme e pelo visto desempenham essa atividade há um bom tempo. As selas ficam todas em um canto só, dentro da mina.

Mais um dia se passa e os três são novamente levados para o seu quarto.

– Como está sua comida hoje?

– Ah, está melhor! Não parecem ter botado o cogumelo errado, mas estou começando a desconfiar dessa raspa escura.

– O que você acha que é?

– Sei lá. Mas dá pra comer também. Sharon? Como era o lugar onde você morava?

– Eu morava em Migliuk, uma cidade anã bastante conhecida em Mitronus.

– Engraçado que nós dois viemos de reinos anões. E nenhum de nós é anão!

– Verdade.

– E como é Migliuk?

– É uma cidade dupla. Tem sua parte exposta e sua parte subterrânea. Encravada numa montanha, vive basicamente de minerações também.

– Também?

– É, como aqui. Mas sem escravos.

– Entendi. Tem elfos em Migliuk?

– Não, eu era raridade.

– E como foi para lá? Tinha família?

– Tinha sim. Um anão forte e nobre chamado Thorul. Ele me adotou como filha e me ensinou muito do que hoje sei sobre batalhas e guerras.

– Ensinou a sobreviver.

– De certa forma. Eu sempre soube sobreviver, mas ele ensinou outros meios. Como sobreviver a outros tipos de situação.

– Ele era arqueiro?

– Não, mas é um guerreiro muito bom. Dos melhores que já vi.

– Mas não é estranho um anão criando um elfo? Quer dizer, sempre dizem que os dois brigam!

– Foi estranho, mas também engraçado. Os amigos de Thorul me chamavam de filha adotada ou de filha protegida. Foi que eu terminei incorporando isso ao meu nome. Sharon Siz-Thorien, a filha capturada e adotada de Thorul.

– Que divertido! Queria ter um sobrenome também.

– Você pode escolher um.

– E como eu faço isso?

– Pra quem está fora de sua cidade, é comum citar a cidade no nome.

– Neriom Silvalenus?

– Provavelmente seria Neriom de Silvalenus, mas Neriom Silvalenus soa bonito.

– Verdade. Poderia ser Neriom Silva?

Os dois se olham por um momento pensativos, então concluem em uníssono:

– Não!

– Que falta me faz uma boa cerveja anã!

– Tenho certeza que aprendeu com o seu pai a gostar disso.

– Sim, de certa forma. Quando a gente se encontra, é uma festa!

– Eu vejo, mas... Sharon, se gostava tanto do seu pai e da cidade, por que saiu?

– Eu sempre fui muito curiosa, na verdade.

Neriom olha com uma cara maliciosa e a elfa se corrige rápido.

– Sempre procurei conhecimento, aprender coisas novas.

– Aí conheceu o paladino...

– Ainda não. Teve uma missão numa ilha, onde fui procurar qualquer coisa de especial, para além do que se entende e conhece. Os boatos eram incríveis sobre aquele lugar!

– Que história boa!

Apesar da empolgação de Neriom, a outra colega de sela não parecia nada empolgada. Ela tinha acabado de se alimentar e começou a reclamar em sua língua o barulho que os dois faziam.

– Acho que a história vai ter que ficar para outro dia.

– É, parece que sim. Amiga Sharon, já que estamos inventando nomes, podemos inventar um nome para a verdinha.

– Que tal Mala? Ou Porre?

– A gente podia misturar os nomes. Podia ser Malorre.

– Até poderia, mas pode ser entendido como o contrário de Porre.

– Ah, pelos nomes dos deuses opostos... Vihva, Mavihva...

– O que você mais detesta no mungo?

– Acho que ser escravo.

– Grilhões?

– Grilhonilda?

– Grilda! E ninguém vai saber a origem do nome.

– Feito.

As Sementes do Mundo InferiorOnde as histórias ganham vida. Descobre agora