Capítulo 3

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Anita.

As horas se arrastam com uma lentidão tortuosa. Naquela imensa sala de espera abarrotada de pessoas estranhas, tento ter fé, acreditar que Apolo ficará bem, mas a dor insuportável se recusa a me abandonar, me dilacerando por dentro.

Vê-lo caído naquela calçada, ensangüentado, ferido, me fez sangrar por dentro, de uma forma insuportável, como jamais me senti antes. Se pudesse, teria trocado de lugar com ele, apenas para não vê-lo sofrer, afinal ele não merece nada do que está acontecendo, é a pessoa mais integra e pura que já conheci. Completamente diferente daqueles que me rodearam durante toda a minha infância e adolescência.

Em Apolo eu encontrei o apoio que precisava quando estava quase desistindo de lutar por ter uma vida diferente daquela oferecida por minha família. Por minha mãe, a maior prostituta de Buenos Aires, aquela conhecida por toda a sociedade como a mulher que conseguiu construir uma verdadeira fortuna indo para a cama com os homens mais ricos da cidade, entre eles, políticos, empresários e celebridades.

Apesar de bastante conhecida por todos, ela não era julgada e condenada como as prostitutas comuns, pois era rica, querida por seus clientes, homens de negócios poderosos.

Eu e meus dois irmãos, Pablo e Ruan, somos efeitos colaterais da sua profissão. Filhos bastardos de supostos milionários desconhecidos que sempre ignoraram nossa existência. Na verdade ela sempre nos escondeu a identidade deles, talvez para evitar que os procurássemos, ou por não saber quem realmente são, hipótese na qual acho mais plausível acreditar.

Aos meus doze anos de idade, comecei a ser preparada para substituí-la quando se tornasse velha demais para o ofício. Como era precoce, adquirindo corpo de mulher ainda aos doze, fui ensinada a me vestir e me maquiar de forma sensual, para não dizer vulgar, a lançar olhares sedutores a qualquer um que usasse calças, de preferência calças caras, sendo velho ou jovem, barrigudo ou atlético, o importante era ter todos eles aos meus pés. E por um tempo os tive, teria sido prospera se assumisse a carreira. Porem, o que minha mãe não percebeu, foi que concomitante aos aprendizados que me inculcava, aprendi também a odiar tudo aquilo. Os homens, a perversão, a forma de encarar o sexo como um instrumento financeiro. Tudo me dava nojo.

Não sei de onde partiu o ódio que sentia por tudo aquilo, se fui criada em meio a esse mundo, sendo forçada a acreditar que tudo era normal, que essa era minha realidade.

Quando completei quinze anos, minha mãe organizou uma grande recepção, reunindo os homens mais ricos de Buenos Aires e das cidades vizinhas, durante a qual minha virgindade seria leiloada por uma quantia exorbitante.

Eu era considerada um verdadeiro tesouro pelos participantes do leilão, todos queriam uma garota virgem, com a aparência de uma adolescente, mas com a experiência de uma mulher. Pelo menos na teoria, eu era experiente. Sabia o que fazer e como fazer. Minha mãe me explicou tudo o que era capaz de deixar um homem louco na cama e aprendi bem minha lição. 

Faltava pouco mais de uma hora para o inicio do leilão e eu estava simplesmente em pânico. Imaginar que em poucas horas eu estaria com um homem qualquer, um velho barrigudo talvez, sendo possuída, forçada a fazer todas as coisas sujas que eu sabia que faria, me deixava angustiada.

Então, seguindo a impulso, simplesmente fugi. Ainda usando meu vestidinho curto e vulgar, uma maquiagem escura, com os quais seria apresentada aos homens, saí escondida pelos fundos do clube onde estava sendo realizada a recepção. Quase congelando na rua coberta pela neve, não sabia para onde ir. Apesar de ter crescido em Buenos Aires, fui preservada da agitação da cidade para não correr o risco de me apaixonar por algum pobretão e entregar a ele o que minha mãe considerava ser meu bem mais valioso. Saía de casa apenas para ir à escola.

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