CAPÍTULO VINTE E QUATRO - A rainha do pouco caso

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(por Marcela)

Aquela ensolarada quarta-feira começou de forma atípica: comigo acordando antes do despertador. Eu era uma pessoa sempre muito zen − totalmente o oposto da minha melhor amiga − e costumava dormir feito um morcego... Durante longas e intermináveis horas. Mas não naquela manhã. Naquela manhã eu estava mais para um filhote canino hiperativo, daqueles que mordem tudo o que veem pela frente.

Arrumei-me com atenção e empenho. Uma boa impressão era fundamental na disputa por um emprego. Procurei criar um visual profissional e ainda assim que revelasse o meu eu nada careta. Desci as escadas do maravilhoso apartamento que me acolhia desde o incêndio no hotel onde Nina e eu estávamos hospedadas e me deparei com Nico e sua mãe. Cumprimentei-os e logo fui convidada a me juntar a eles para um rápido café. Cafeína nunca é demais − e nem ela é capaz de me manter acesa quando o sono vem à minha procura.

Eu estava pronta para chamar um táxi quando Nico me ofereceu uma carona. Recusei. Afinal, não é como se ele já não estivesse fazendo muito por mim, e não importa que a minha melhor amiga seja a sua real motivação para isso. Ele não tinha obrigação nenhuma de se preocupar comigo, mas o fazia. Sujeito fofo esse tal de Nícolas.

Ele insistiu, insistiu e bem... Não é que ele era bastante persuasivo? Não tive como negar. Entramos em seu carro, que rapidamente foi preenchido por uma boa música. Ele me pegou em flagrante roendo as unhas e me aconselhou a não ficar tão nervosa. Oras!

− Não conte a Nina que me viu roendo as unhas − pedi sem me dar ao trabalho de tirá-las da boca. Já havia sido pega em flagrante mesmo. − Esse é um gesto que não combina com a "rainha do pouco caso" − contei, usando as mãos para fazer aspas no ar. Era assim que a Nina costumava se referir a mim.

− Vocês se acham muito diferentes, mas eu as acho muito parecidas − ele desviou o olhar por um instante na minha direção e me lançou um sorriso. − Vocês são muito engraçadas, especialmente quando estão discordando entre si.

Tentei encarar aquilo como um elogio, embora provavelmente não fosse. Eu não podia ficar me preocupando com nada além daquela bendita entrevista de emprego. Toda a ansiedade que ela me causava me faria perder o título de "rainha do pouco caso" a qualquer momento.

Cheguei à redação do Diário 26. Se eu estava adiantada? Mais de meia hora. Felizmente eu não era a única. A redação já estava abarrotada de pessoas que eu julgava como possíveis concorrentes. Involuntariamente me senti intimidada. Droga, onde está aquela garota com a tal da caixa torácica vazia? Onde está a jovem zen que nunca se deixa abalar? Onde está a personagem que jamais poderia fazer parte de uma novela mexicana? Onde diabos está a "rainha do pouco caso" (RPC para os íntimos)? Uma dica: ela havia evaporado. Ali eu era a Marcela pessimista e cética, com a autoestima grudada na sola do sapato. Inspira. Expira. Inspira, expira. InspiraExpira. InspExpCaralh*!!! Aquilo definitivamente não estava dando certo. Não é como se eu pudesse ser a parceira perfeita para o Buda − embora essa última ideia não faça o menor sentido e seja totalmente falha. Enfim. O ponto é...

Que eu já estava sendo chamada para a minha entrevista. Não sei dizer se o tempo passou rápido ou lento demais. A minha única atual certeza era a de que eu estava nervosa. O jovem e visivelmente bem sucedido rapaz de olhos azuis que me entrevistou só colaborou para o aumento do meu nervosismo. Mordi o lábio inferior. Droga. Ele pensaria que eu estava dando uma de Anastasia Steele... E não, eu não queria que ele achasse que nós tínhamos algo em comum, pois não era o caso. Tentei me controlar e acho que me saí bem, afinal de contas. É claro que no final eu não consegui controlar a minha mania de ser direta e sincera e acabei confessando que havia achado o meu futuro-chefe (olha o meu otimismo de volta!) um gato. Dito isto, achei que todas as minhas chances estavam perdidas. Amaldiçoei-me incontáveis vezes, mas para a minha surpresa as palavras que ouvi foram: "Parabéns, Marcela, você está contratada!" Ah meu Deus. Seria antiprofissional fazer a minha dancinha − minha marca registrada e uma das minhas poucas demonstrações de sentimentos − ali na frente dele? Definitivamente!

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