#03 - A Terra dos Gnomos

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"Estas são as paginas do meu diário, que escrevo em um antigo grimório que me foi legado. Considero-me conhecedora da magia, mas apenas até certo ponto. A magia teórica. Quem sabe um dia eu invista tempo e esforço para me tornar uma maga também. Há muito tempo, recebemos uma missão de resgate. Infelizmente, o casal elfo que deveria ser resgatado já havia morrido no caos que era aquele templo maligno. Flamdarir insistiu para que eu ficasse com o grimório. Não achei ruim. Isso se passou muito antes de entrarmos em Varmadum. Sobre este reino, sinto que é mesmo enorme. E mais profundo até que Mitronus, possivelmente. Quem diria que o famoso Mar de Fogo era real? Apesar de eu não ter podido vê-lo na ocasião em que fui sequestrada, pude sentir as ondulações do navio de pedra que usaram como transporte."


Sharon não percebia com tanta clareza, mas os guardas mudavam de tempos em tempos. É sabido que ogânteres só revelam sua pele brilhosa e colorida ao Sol, sendo albinos quando estão debaixo da terra. Somente ao Sol se vê aqueles tons de verde, laranja e tantas outras cores, numa textura que lembra alguma gema preciosa.

Hoje a elfa não viu seu amigo, mas recebeu algumas chicotadas. As primeiras, por se esticar procurando Neriom com os olhos ao invés de focar no seu trabalho. As seguintes, por rancor e maldade. Como também é bastante sabido, escravos não costumam ter lá muitos direitos.

Hoje ela viu um raro humano aparecer. Não aguentou o trabalho e terminou sendo levado pelos guardas no final do dia. Somente o corpo, como um peso morto.

Esse não é mesmo um trabalho fácil. Se Sharon não tivesse uma saúde fora do normal, comparável mesmo a um anão marrento, poderia tranquilamente ter se juntado às dezenas de escravos que ela viu serem levados sem vida sabe lá para onde.

Dois pensamentos repentinos lhe fizeram arregalar os olhos. Primeiro: será que é essa a origem da carne que alimenta sua velha colega de quarto? Segundo: a saúde de Neriom seria tão boa quanto a sua? Ele resistiria àquele trabalho exaustivo? Só o tempo poderia dizer e ela sentia que já havia esperado tempo demais.

À noite estavam os três novamente na sela. Dessa vez, ela fez questão de não olhar a tigela da mulher-lagarto.

– Como foi seu dia, querida?

– Você gosta dos seus dentes, Neriom?

– Não entendo a pergunta. Acho que sim.

– Não fale comigo desse jeito de novo.

– Tá, desculpe. Estava só brincando. Você nunca ouviu dizer que gnomos gostam de brincadeiras?

– Devo ter ouvido algo assim.

– Olha só! Esse cogumelo não é de comer! O guardas estão doidos!

Sharon observa enquanto Neriom retira um chapéu de cogumelo do seu prato.

– Esse aqui a pessoa vê coisas. Quer experimentar?

– Eu não.

– Podíamos dar pra nossa amiga de pele fria... Ia ser bem divertido ver ela viajando legal. Talvez se acalme um pouco.

– Ah, fala sério...

– Vai ser divertido. Topa?

– E se ela se ver em perigo e começar a atacar a gente?

– É, tem isso.

– Você disse que veio de Minas Leste...

– É, eu nasci numa vila dentro dos túneis. Silvalenus.

– E como é lá?

– Ah, é legal. É uma vila gnomo, mas tem uns goblins também e até uns anões morando por lá. É um lugar divertido. Minha família tinha uma plantação de cogumelos comestíveis. É um bom negócio, quando não vem alguém para roubar nossa produção.

– Roubam cogumelos por lá?

– Você não faz ideia. Imagine só: aquele corredor grande, com centenas de cogumelos apetitosos. Não tem como! Dá vontade de comer!

– Imagino que sim.

– A prefeita da gente é Lebálen. Ela adora chapéus vermelhos de aba bem grande. É nossa prefeita há muitos anos! Tratado todo mundo bem. Você ia gostar dela, tenho certo.

– Parece uma cidade pacata.

– A gente tem um lago também onde todos vão tomar banho.

– Nem me fale em banho...

– Bem que podia ter um lago aqui também, não é?

– Seria ótimo.

– Pois é. Assim é a minha cidade. Tem muito o que dizer dela não.

– Tem taverna?

– Claro que tem! A do Diesk! Se chama Casa do Dragão, mas todo mundo prefere chamar de Barraco do Diesk. Ele odeia isso, fica com uma raiva!

– Por quê?

– Ele é um coboldo. Um nanico mas todo metido. "Casa do Dragão"? Por causa dele?! O dragão é ele?! Ninguém leva isso a sério, por favor!

Sharon sorri daquele tipo de problema e não deixa de pensar que o amiguinho gnomo tinha uma vida feliz antes de vir para esse inferno.

– Você queria conhecer o Jardim Tropical?

– O reino dos gnomos? É claro que sim! Um dia eu quero conhecer, com certeza. Poderíamos viajar para lá nas férias.

– Não seria má ideia. – A elfa diz, pensando em como tirou a sorte grande em conhecer aquela pessoinha. Como esse inferno é um sofrimento ainda maior sem essas conversas noturnas. – Então sua família pagou essa viagem para cá?

– Mais ou menos. Pagou sim.

Os dois são surpreendidos com o bafo da colega de sela, bem perto deles de repente. Ela mostra os dentes de maneira hostil e se deita, virada para a parede.

– Acho que é nossa hora, amiga elfa.

– Parece que sim.

– Eu estive pensando. Ainda estou com o cogumelo aqui e...

– Não!

– Sem graça...

– Boa noite, pequeno.

– Boa noite.

As Sementes do Mundo InferiorOnde as histórias ganham vida. Descobre agora