UM

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O dia seguinte não parecia real de maneira alguma. As coisas aconteciam à minha volta e era como se eu enxergasse tudo de dentro de uma bolha, onde nada poderia me atingir de fato, como um fantasma.

            Tomei um banho sem sentir a água, depois minha mãe falou comigo sem que eu pudesse escutar. Um vestido preto me esperava esticado em minha cama, não quis usá-lo, ao invés disso optei pelo vestido branco, o presente. Prendi meu cabelo em coque, pois não queria arrumá-lo.

            Uma dezena de diligências da realeza nos esperava no portão de casa e nos levara em silêncio até o cemitério. Não tinha certeza se a cidade toda estava em silêncio ou se era eu que não me importava em ouvir.

            De longe, foi possível enxergar o tumulto. Centenas de pessoas que pensam conhecer o meu namorado se aglomeravam no cemitério para acompanhar a despedida de Pablo. Poucos deles têm uma história verdadeira com Pablo, o observaram enquanto dormia ou riram de alguma piada dele. Por que estavam ali? Suas presenças me insultavam.

            Os guardas abriram espaço para as diligências que transportavam a mim e a minha família, todas aquelas pessoas me encaravam e eu não me importava. Logo percebi que a grande massa estava em um espaço separado dos familiares e pessoas que realmente conheciam Pablo. Todas as cadeiras estavam nomeadas com a relação de Pablo com essas pessoas, algumas continham uma placa escrita "amigo" esperando o seu dono, outras tinham "pai", "mãe", "primo" e coisas do gênero.

            Fui guiada até uma cadeira com o escrito "futura noiva".

            Minhas irmãs sentaram logo ao meu lado. Do meu lugar, era possível ver o caixão, fechado, rodeado por uma variedade de flores.

            Ouve salva de tiros, salva de palmas, o rei estava lá, músicos tocaram em seus violinos músicas que Pablo jamais escutaria por opção. Pessoas que eu nunca havia visto na vida choravam copiosamente. A mãe de Pablo desmaiou e foi prontamente atendida.

O céu estava muito limpo. Azul.

Cavaram uma cova funda, posicionaram Pablo dentro dela e jogaram.

            Pouco a pouco as pessoas foram deixando o lugar, todas olhando para o chão, o cemitério foi ficando vazio.

             Minha mãe passou a mão sobre meus ombros e disse:

            — Pode ficar aqui o tempo que quiser, esses homens vão te esperar. — Beijou minha testa e se retirou com o resto da família.

            Quando achei que já estava sozinha no lugar, uma sombra no chão denunciou a presença de outra pessoa. Isabel encontrava-se parada à minha frente, olhando para mim, com os dedos entrelaçados, usando um vestido preto e parecendo desolada. Tão frágil.

            Em um salto eu me levantei e ficamos frente a frente sem dizer nada por um minuto inteiro. Tão rápido e subitamente quanto deveria ser, nos abraçamos e choramos juntas, como iguais, uma no ombro da outra, sonoramente.

            Ficamos estáticas dessa forma durante o tempo que foi necessário.

            Finalmente nos soltamos, nos sentindo um pouco mais leves, Isabel se virou e foi embora sem nada dizer. Melhor assim. 

            Contornei as cadeiras e me aproximei do túmulo de Pablo, existia uma coisa que eu queria fazer. Sentei-me em frente e só então pude ver o que haviam escrito em sua memória:

"Aqui jaz Pablo, o homem que voou".

            Exatamente como pensei, o que escreveram não era o bastante para ele. Tirei do meu sutiã o pedacinho de carvão que trouxe comigo e rabisquei ao lado do seu epitáfio:

"E amou".

            Gostei da forma como a frase soou.

            Voltei para casa e assim que cruzei a porta encontrei a Natasha me esperando. Ela olhou para mim e eu pude sentir que ela suplicava por algum modo de me ajudar, mesmo sabendo que isso era impossível. Eu não sabia o que dizer, então permaneci calada, assim como ela que se aproximou silenciosamente e me abraçou. Um abraço tão forte que só uma irmã teria permissão para dar na outra. Pelo seu ombro, pude ver a Raquel se aproximando lentamente, ela veio ao nosso encontro e abraçou nós duas, estendendo os braços o máximo que pode. Logo atrás de mim, senti o corpo de Bianca abraçando a nós três, de olhos fechados.

            Então veio a Anita...

            Mariana...

            Mika...

            Todas as minhas irmãs se aproximavam uma a uma e se juntavam àquele abraço coletivo, conectando todas nós a uma coisa só. Fui sentindo o meu corpo cada vez mais quente à medida que elas se aproximavam, assim como o meu choro era mais acolhido. Eu estava em um lugar seguro e sabia disso. Todas as irmãs estavam conectadas naquela demonstração de amor coletivo na sala de estar.

            Então minha dor foi dividida por sete, tornando-se mais suportável.

            Naquela noite, dormi pela primeira vez depois do que me pareceu um século.

MAIS LEVE QUE O AR (HISTÓRIA COMPLETA)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora