CAPÍTULO VINTE E DOIS - É por isso que eu luto

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Lentamente, retirei a agulha de dentro do músculo e pressionei a área com algodão. Ainda doía um pouco, confesso, mas era aquele tipo de dor que proporciona também uma dose imensurável de satisfação. Quando levantei o rosto, pronto para abaixar a bermuda e organizar a minha cama, eu a avistei. Nina. Ela estava parada no corredor, me espiando pela fresta que acabei deixando, achando que estava sozinho em casa. Subitamente fui tomado por um sentimento de vergonha. Eu não queria que ela visse a minha realidade, de fato. Talvez ela me aceitasse bem como um transexual exatamente por desconhecer certos detalhes da minha condição. Droga... Não acreditei ser capaz de ter um pensamento como aquele, então me envergonhei pela minha vergonha. Eu já havia vivido o suficiente para entender que não podia me envergonhar de quem eu era.

Quando nossos olhares se cruzaram, ela sorriu daquele seu jeito gracioso e tímido e em seguida baixou o olhar. Eu estava em dúvida se a convidava para entrar ou simplesmente falava alguma coisa. Para a minha sorte, foi ela quem tomou alguma iniciativa.

− Eu sinto muito − ela sussurrou constrangida. − Não queria te espionar. Só estava passando e a porta estava aberta, então... − eu a interrompi. Aquela falação era fruto do seu nervosismo, eu sabia bem. Mas não havia motivos para tal.

− Você pode entrar − devolvi com um sorriso. O motivo dele? Eu não sabia muito bem. − Não é como se eu fosse aprisioná-la aqui para sempre − embora a ideia fosse tentadora.

E finalmente ela entrou. Seu olhar curioso percorria o ambiente e eu não sabia como me sentir em relação à situação. Por via das dúvidas, optei pela apreensão mesmo. Houve um instante silencioso, onde seu olhar me questionava se ela podia mexer nas minhas coisas e eu apenas assenti, como quem diz: "vá em frente". O meu quarto era um pouco bagunçado, e havia tantas coisas espalhadas... Ela pegou um dinossauro de plástico que era mais velho que eu e me olhou com curiosidade.

− Era do meu avô − expliquei com um dar de ombros. − E vem sendo repassado para os homens da nossa família. Meu pai deu a Nico, que por sua vez me deu.

Ela assentiu com um sorriso e continuou mexendo nas minhas coisas. Aquele nível de intimidade havia me pego de surpresa, mas é bem verdade que eu estava gostando. Eu quase me podia ouvir dizendo: "Nina, seja bem-vinda ao mundo do Noah".

− O que é isso? − perguntou segurando uma faixa que eu conhecia bem.

− É um binder − eu disse de forma casual. É claro que ela não sabia do que eu estava falando... Às vezes eu me esquecia desse pequeno detalhe. − Eu usava com frequência antes da cirurgia... Para esconder os... Hm... Seios − quis dizer invasores, mas ela não entenderia do que eu estava falando.

− Hmmm − foi tudo o que ela respondeu enquanto assentia. Droga. Eu queria poder saber o que ela estava pensando. Aquilo era meio torturante. − Imagino que a injeção seja hormonal, correto? − concordei e ela continuou caminhando despreocupadamente pelo meu quarto, observando cada coisa nos seus mínimos detalhes.

Eu estava completamente vestido, mas me sentia nu diante dela.

Sua atenção agora estava voltada para a bancada onde ficava a televisão e a minha enorme coleção de carrinhos. Ela pegou alguns e os observou com atenção. Felizmente, ela manteve os carrinhos nas devidas posições. Eu era chato em relação a isso. A primeira gaveta da cômoda estava um pouco aberta e só então percebi que talvez ela cogitasse ver o que tinha ali dentro. Quando me dei conta disso, o desespero me tomou e...

− NÃO − gritei, me levantando e indo na sua direção.

Tarde demais. Nina já havia encontrado o objeto demasiado íntimo que eu não queria que ela encontrasse. Ela fez uma careta para mim e em seguida sorriu. Um silêncio muito estranho se instalou e embora ela não estivesse me fazendo perguntas, me senti na obrigação de dar alguma explicação. Por mais constrangedor que fosse.

− Isso é um packer − eu disse, apesar dela não ter me perguntado nada. − Eu o uso, hm, bem... Dentro da cueca − eu estava vermelho, podia sentir minhas bochechas queimando e meu coração batendo descompassado. − Além do volume que ele proporciona, me permite urinar de pé nos banheiros masculinos − acho que a Nina percebeu o quão constrangedora aquela situação era para mim. Ela continuava sorrindo e se aproximou, me entregando o packer.

− Não ter um pênis entre as pernas não faz de você menos homem − ela sussurrou com os olhos bem presos aos meus. − Toma... − ela continuava ali com o braço estendido na minha direção. Peguei o meu packer de suas mãos. − Vá se vestir de uma vez. Eu preciso estar no hotel para a minha entrevista em quarenta minutos. Talvez você possa me dar uma carona.

− Eu posso acompanhá-la na entrevista − soltei sem pensar. Ela me encarou, e uma de duas sobrancelhas estava erguida de forma inquisidora. − Minha aula foi cancelada − expliquei.

Mentira. Das grandes.

Quem se importa?

Eu só queria passar algum tempo a sós com ela... Eu não pretendia beijá-la, seduzi-la nem nada do tipo. Eu só queria estar com ela. Isso me bastava. Ao menos por enquanto.

Assim que ela deixou o meu quarto, precisei de um instante de reflexão. Que droga havia acontecido ali? Eu havia mesmo revelado todos aqueles aspectos íntimos da minha vida para ela? Sim. E isso era perturbante, pois eu nunca havia feito isso com mais ninguém. Nem mesmo com Nico, que me acompanhou nas minhas primeiras consultas quando eu era só um garoto.

Tentei elaborar duas explicações plausíveis para o ocorrido.

Primeira: a Nina me via com olhos admirados... Ela enxergava apenas um rapaz bonito e de quem ela gostava. Isso era um dos maiores fatores que me faziam admirá-la. Talvez, toda a sua admiração estivesse ligada ao fato dela não saber muita coisa a respeito da minha sexualidade. E bem, talvez, se ela soubesse desses detalhes mais íntimos, ela começasse a me ver de outra forma. Isso me deixaria na pior, se fosse verdade, mas talvez tivesse seu lado positivo. Minha admiração por ela se provaria um grande equívoco e ela e Nico poderiam ser felizes sem que isso me incomodasse.

Segunda: caso Nina continuasse me vendo com aqueles mesmos olhos simpáticos, admirados e gentis − o que parecia ser exatamente o caso − bem... Nesse caso...

Eu estava ferrado.

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Yaaaaaaai, eu disse que não ia demorar para quarta chegar, viram como eu estava certa? Esse capítulo é de quebrar o coração </3 Mas achei importante criá-lo, afinal, o que sabemos de fato sobre o universo trans? Para escrever esse capítulo fiz algumas pesquisas e contei com a opinião crítica da Carol também (que entende muito mais que eu hahaha). Aproveito para pedir que vocês assistam ao vídeo, pois tem TUDO A VER com o capítulo. O poema Transceder foi escrito (e declamado) pelo Thiago Uchôa e me emocionou muitíssimo! Espero que emocione a vocês também... E bom, tenho alguns recadinhos e tentarei ser breve!

1) Já comentei por aqui que "Com outros olhos" (meu conto disponível na Amazon) ganhará uma versão IMPRESSA e ESTENDIDA no próximo mês, né? Enquanto isso não acontece, a novidade é a seguinte: nos dias 17, 18 e 19 (sexta, sábado e domingo) a obra poderá ser baixada de forma GRATUITA na Amazon. É só entrar no site e colocar o nome da obra e/ou o meu... Mas, também deixarei o link aqui nos comentários!

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3) Por último, mas não menos importante, quero apenas agradecer por todas as suas leituras, estrelinhas e comentários <3 "PEG" não seria possível sem vocês. Obrigada, obrigada e obrigada!!!!

Até sexta-feira!!!! 

PODER EXTRA G (degustação)Leia esta história GRATUITAMENTE!