CAPÍTULO VINTE

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Entrei no elevador e não encontrei palavras para aliviar aquela tensão. Justo eu, que estava familiarizada com as palavras e trabalhava com elas diariamente, em pelo menos três idiomas. Só que em nenhum dos três havia uma palavra que pudesse me fazer externar como eu me sentia por dentro. O que era aquilo? Um misto de hesitação, medo, alegria...? Não, era mais, muito mais, e eu continuava não conseguindo descrever nada daquilo.

Chegamos à cobertura do prédio bastante rápido, ou talvez eu estivesse mais imersa nos meus próprios pensamentos que o habitual. Nico me olhava de um jeito carinhoso, mas era ainda como se esperasse uma breve explicação sobre o ocorrido. Ele me olhava como se dissesse "como você pôde namorar esse troglodita?". E bem, eu também me fazia essa mesma pergunta de vez em quando. As respostas não eram lá muito convincentes... Iam de abdução alienígena até perda momentânea de neurônios.

Quando as portas do elevador se abriram, Noah e Marcela surgiram no meu campo de visão. Ambos pareciam ansiosos para saber o que havia acontecido. Fomos até a sala, onde nos sentamos no sofá e estendemos aquele incômodo silêncio. O que eu deveria dizer? Eu só conseguia pensar em três palavrinhas...

− Eu sinto muito − murmurei de cabeça baixa. Eu estava um pouco envergonhada. Marco vir atrás de mim em Buenos Aires era muito ruim, mas vir atrás mim na casa do meu namorado temporário é pior ainda... Não acham?

Fiz um relatório completo sobre o ocorrido na portaria. Quando contei sobre o tapa, Marcela vibrou de alegria e admiração. Desculpei-me com Nico tantas vezes quanto pude. Ele dizia que estava tudo bem, mas eu não sentia verdade em suas palavras. Algo o incomodava e ele não queria me dizer o que era. Foi difícil dormir naquela noite. O dia havia sido longo e havia acontecido tanta coisa, como o meu cérebro podia apenas relaxar?

Na manhã seguinte, quando acordei, Nico e sua mãe não estavam mais em casa. Noah estava se preparando para ir para a faculdade e logo minha melhor amiga e eu ficamos sozinhas naquele gigantesco e maravilhoso apartamento. Era meio bizarro que aquela família confiasse em mim tão gratuitamente.

Entre cafés e torradas, Marcela e eu esboçamos nosso passeio turístico do dia, que consistia basicamente em: compras! Eu precisava de livros, roupas e sapatos novos para esquecer toda a confusão do dia anterior. Eu estava terminando de arrumar a minha bolsa quando o meu celular tocou. Era uma ligação do Brasil, mas de nenhum número conhecido. Uma voz feminina altiva me cumprimentou do outro lado e eu apenas perguntei quem estava falando. E então o seu discurso começou.

− Olá Nina. Meu nome é Patrícia e eu trabalho na revista Pop Chique. Você conhece o nosso trabalho?

− É claro que sim − respondi rapidamente. Quem poderia não conhecer a revista? É uma das mais vendidas no Brasil. Eles são conhecidos por suas matérias sempre envolvendo o universo feminino.

− Bom, isso já é um excelente começo −afirmou com uma risadinha sem graça. Não a acompanhei. Isso pareceu trazê-la de volta para o motivo da ligação. − Bom... Nós gostaríamos de fazer uma matéria exclusiva com você.

− Matéria? Acho que você deve estar me confundindo com outra pessoa − garanti. Eu já havia saído no jornal uma vez, graças à tradução de um best-seller americano, mas não era como se eu fosse o tema da reportagem. Meu nome apenas apareceu no meio, quase jogado ali ao acaso, e nada mais. Ainda assim, vibrei de entusiasmo na época. "Manhê, estou no jornal!"

− É claro que não, querida − respondeu com mais uma daquelas risadinhas irritantes. Alguém pode fazê-la parar? Que horror! − Nós soubemos do seu caso em uma loja de Buenos Aires, envolvendo discriminação e propagando enganosa... Não estou certa? − eu murmurei um leve sim e ela continuou. − A nossa próxima pauta tratará do universo plus size e pensamos que você seria um belíssimo exemplo para estampar nossa capa.

− Capa? − perguntei atordoada. − Você me quer na CA-PA?

− Ah sim, querida... Nós a queremos na nossa próxima capa. O que você me diz?

SIM! Sim, sim, sim e sim. Foi tudo o que eu disse.

****

Eu ainda estava assimilando a notícia daquela manhã. Eu estamparia a capa da revista mais conceituada do país? Isso parecia louco e surreal. E a vida continuava a rebolar, trazendo-me milhões de surpresas a cada volta. Quem ligava para toda a sua bipolaridade? Liguei para os meus pais e contei a novidade. Eles vibraram de alegria junto comigo. Marcela ficou pulando pela sala, fazendo uma dancinha estranha que fazia com que ela parecesse dez anos mais jovem.

Marcela e eu adiamos o nosso plano de compras por algumas horas. Fomos correndo até a livraria do Nico para lhe contar a novidade. O sorriso que ganhou forma em seu rosto foi tão arrebatadoramente maravilhoso, que subitamente senti que poderia desmaiar ali mesmo. Ele me abraçou e comemorou comigo. Disse que precisávamos sair para jantar e rapidamente eu concordei. Ele mandou uma mensagem de texto para Noah e nós quatro já tínhamos planos para aquela noite. Eu estava animada!

****

Marcela e eu almoçávamos em um restaurante italiano. Tudo estava divinamente gostoso. Pela segunda vez eu comia o tal do sorrentino de jamón. Instantes depois, recebi um e-mail com todas as informações sobre a matéria da Pop Chique. No dia seguinte eu precisava encontrar uma equipe em um luxuoso hotel de Buenos Aires. Seria fotografada para a capa, filmada para o site e entrevistada para a matéria. Fui até a boutique da minha futura utópica sogra e saí de lá com roupas maravilhosas. Eu estava distraída procurando cd's das minhas bandas mexicanas favoritas − que não encontramos no Brasil − quando meu celular anunciou o recebimento de uma mensagem. Ela era de Marco. Sim, aquele cretino havia esquecido o significado de amor próprio. Mas tudo bem, parecia justo, já que eu mesma o havia esquecido por quase dois anos. E então eu recebi a sua chamada. A contragosto, atendi.

− Nina... Por favor, não desligue. Podemos nos encontrar amanhã de manhã? − ele quis saber usando um tom de voz irritantemente doce.

− Eu já tenho compromisso − informei, omitindo do que se tratava.

− Eu sei... − ele disse ainda de forma mansa, mas com certa alegria na voz. − E talvez eu possa acompanhá-la.

Meu cérebro começou a trabalhar em velocidade sobrenatural e numa fração de segundo eu compreendi tudo. Agora tudo era óbvio e fazia total sentido... Como pude não perceber isso antes?

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Pessoas lindas e maravilhosas que me presenteiam com suas leituras, comentários e estrelas... Como vocês estão? Confesso que aqui, do outro lado da telinha, estou ansiosa por mais leituras, comentários e estrelinhas, pois como vocês estão cansados de saber, sou gulosa, rs! Muito obrigada por todo apoio <3 Vocês são incríveis e a história da Nina não seria nada sem vocês. Tenho alguns pequenos avisos, serei breve, ok?

1) Mais uma obra minha sairá em formato impresso *dancinha maluca da Marcela* Pois é. Como muuuuitos leitores se queixam de plataformas digitais, acabei me convencendo de imprimir uma pequena tiragem de "Com outros olhos", publicado na Amazon. A novidade é   que o conto ganhou três capítulos inéditos. Em breve hei de trazer mais informações. Okay? Okay! *-*

2) Outra novidade! Na sexta-feira haverá mais um capítulo de #PEG. Mas... "Qual é a novidade nisso?", vocês devem estar se perguntando. A novidade é que o próximo capítulo virá acompanhado de uma cena bônus. A leitura dessa cena será opcional e na sexta vocês saberão por quê.

3) A Rafa, leitora queridíssima, fez uma postagem maravilhosa sobre o universo Plus Size e a Nina marcou presença por lá. Vou deixar o link do post aqui nos comentários... Convido-os a visitarem o blog e deixarem seus comentários!

4) Já falei demais, né? Então por hoje é só <3 Até sexta, gente linda!

PODER EXTRA G (degustação)Leia esta história GRATUITAMENTE!